Não serve pra nada

Hoje, no almoço, conversávamos sobre coisas antigas, como aquelas PABX dos desenhos animados onde era necessário ligar um cabo em dois orifícios diferentes para transferir uma ligação. Saudosa, minha mãe se lembrou que apredeu a mexer nessas P.A.s aos dezesseis; e que aprendeu uma série de coisas desde então: P.A.s com botões, arquivo e biblioteconomia, tricô, crochê, costura, mesmo que essas coisas “não servissem para nada”, como ela disse.

Enquanto escrevo isso no iPhone, largada em uma poltrona da sala com um livro aberto em meu colo, minha mãe procura na internet receitas de tricô; meu pai ouve músicas antigas da vitrola, saídas de vinis dos anos 70; e minha irmã tenta aprender a tocar algo complicado no teclado, fones no ouvido e muito concentrada.

Tudo isso para quê? Qual a utilidade de meu livro, o tricô, a música?

Mas qual a utilidade de fazer contas e apertar parafusos, afinal?

Vai saber há quantas gerações aprendemos que a arte é inútil e que só os esforços pelo trabalho e dinheiro são úteis. Mas no fim de uma vida toda, o que nos teria mais valor: os livros que lemos ou os parafusos que apertamos?

Como dizer, portanto, que a arte é inútil? Ela nos traz a reflexão; ela nos lembra que somos humanos. Quanto mais leio sobre ficção científica, mais cresce meu temor sobre a robotização da modernidade e que os contos mais sombrios que li sejam verdade. A maior parte desses contos têm uns 50 anos e temiam que o futuro fosse… exatamente como é hoje.

Meus amigos não pensam sobre isso nem sobre nada: absorvem seriados, feeds rss, novelas e propaganda. Eu também. Não sei onde encontrar filósofos e livres-pensadores, mas sei que existem. Que estão por aí, pelos fórums, pelos bares e listas de email questionando a própria existência e humildemente se perguntando, afinal, pra que serve tudo isso.