[primeira - parte 05 de 05]
* * *
– Mamãe, – Luzia me perguntou aos cinco anos, sentada no meu colo – eu não tenho um papai?
– Claro que tem, querida. Ele está lá fora. Ou com o papai do céu.
Ninguém no acampamento gostava de religião mas eu não pude deixar de apresentar o que eu acreditava que fosse Deus para minha filha. Ela era luz. Ela poderia mudar de ideia quando fosse mais velha. Com cinco anos, eu achei que ela precisava de algo a mais do que só o tangível.
– Ele não gosta de mim? – ela perguntou. Eu a abracei forte.
– Claro que gosta, meu bem. Claro que vai gostar de você.
– Mas… eu sou cega, mamãe… Ele vai gostar de mim mesmo assim?
Meus olhos se encheram de água.
– Querida, sinta isso. – Coloquei a mãozinha macia dela na cicatriz do piercing no meu lábio. – É uma cicatriz. Um machucado que vai ficar aqui pra sempre. Sente a sua boca? Ela não tem isso. E seu pai me ama mesmo com isso. Mesmo com as outras cicatrizes. O amor não é de ver, querida. É de sentir.
Ela se abraçou em mim e ouvimos uma movimentação diferente no acampamento.
* * *
Cássio estava seis anos mais velho, barbudo, cabeludo, magro, com a aparência de um mendigo sujo, mancando e malcheiroso.
– Que foi, mamãe? – Luzia, ainda no meu colo, perguntou ao notar a agitação.
Não consegui responder. Ele ignorou a todos e andou na minha direção.
– Quem é, mamãe? Me fala! – Ela insistiu.
– Hey… – Ele se ajoelhou ao meu lado. – Qual seu nome, princesa?
– Luzia… E você precisa de um banho.
Ele riu. Eu sorri enquanto lágrimas rolavam no meu rosto. Ele nos abraçou.
– Papai está de volta, meu amor. – eu sussurrei.
* * *
Soubemos por Cássio que a revolução tinha acabado – e ninguém ganhou. A Organização das Nações Unidas tomou conta do país, expulsando os governantes, prendendo os opressores e libertando nossos grupos. Cássio nos procurou em todos os acampamentos e aquele era um dos últimos.
Dois anos depois, Luzia estava matriculada em uma escola para cegos. Aprendeu a ler e escrever e era uma das alunas mais inteligentes da sala.
Durante a noite, eu deitava e ouvia ela e o pai discutindo planos pela madrugada…
…e eu soube que meu coração nunca foi destinado a ficar em paz.