Conto 08

Era uma corrida vum! vum! de patins com foguetes de velocidade superavançada e vários competidores desconhecidos. Então ele colocou seus calçados especiais/espaciais de patinador veloz e vum! vum! ia desviando de todos, de pessoas cachorros lixo obstáculos, esperando o sinal para seguir, respeitando para parar.

Agora era uma ladeira, uma descida, e ele esquiava, squeeeesh, e o vento batia nos seus cabelos e ele era o herói do mundo.

E pulava os obstáculos, escalava montanhas, subia e escorregava pow! bum! como nos quadrinhos.

Pronto, missão completa, estava na nave mãe.

O computador central com voz de mulher sem sentimentos (quais ainda têm hoje em dia?) dava instruções claras: “A faixa amarela é a sua segurança”. Viu a faixa no chão e deu um passo para trás. Só avançou quando a sub-nave chegou e, num ruído automático, sheep, abriu as portas.

Sentou-se enquanto outros sentavam ou ficavam em pé. Acompanhou as notícias, o horóscopo, o tempo e as dicas de moda dos monitores coloridos. Warp 3 ou 4? A viagem era rápida e estava escuro lá fora porque todos sabem que a velocidade de dobra é maior que a da luz.

Chegou ao seu destino e mais patinação, esqui, parkour.

Dever cumprido, dizia o diário de bordo do capitão da própira vida.

E descansou.

Imagem por Laís Preuss do http://thebluestraggler.blogspot.com/

Conto 07

Quando suas pernas falhavam, seu fígado falhava mas os fantasmas continuavam nos seus calcanhares, ele acabava se encontrando em plena igreja matriz da cidadela – em segredo.

Em segredo, se jogava aos pés da imagem de qualquer um dos santos ou aos pés da imagem de Jesus. Ajoelhava humildemente, despido de tudo, rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria (tudo que sabia rezar) e ficava lá, menos homem, mais alma perdida, pensando ou se acalmando e sentindo-se protegido.

Era a única forma. Mais velho dos irmãos, mais jovem dos pais, já não se sentia protegido há tantos anos. Há tanto tempo. Só protegendo. Cuidando. Se preocupando.

E quando seus filhos perguntavam qual era o seu segredo, ele lhes dava um beijo na testa, apagava a luz e dizia: durmam com Deus.

Conto 06

Quantas pessoas? Cinquenta, cem, mais, num vagão de metrô.

Faltou luz. Qualquer engrenagem que falta em uma cidade dessas gera efeitos catastróficos. Mas sempre tem uma peça faltando.

Eram duzentas pessoas e silêncio.

A individualidade das engrenagens é sempre fascinante, mas não há mesmo bom humor antes das nove da manhã. Ainda mais sem energia elétrica.

Somos tão dependentes de coisas complexas para ter humor, locomoção e comida que o fim do mundo é iminente.

Pelo menos há internet móvel. Trinta e sete por cento de bateria no celular. Pouco. Poucas estações. Possível.

Logo chega o verão. E as chuvas. Tudo para nas chuvas, é caótico. A cidade transborda, falta energia, sinal de TV, telefone e internet. Um prejuízo só.

As pessoas em silêncio entram em desespero quando não conseguem se comunicar com o mundo. Ou ter notícias dele.

E o horário de verão vai chegar e às seis da manhã vai estar claro. As cervejas no fim do dia voltarão (talvez). As comidas leves, os sucos gelados, sorvetes e vestidinhos.

E a chuva. Sinto uma falta especial da chuva.

Era para ter ficado brava sem metrô, mas só fiquei melancólica.

ps. Eu sei que seriam só cinco. Me empolguei.

Conto 05

Grandes amores e amores verdadeiros podem acabar, diferente do felizes para sempre. Imaturidade é um grande fator. Ninguém está pronto para viver feliz pra sempre aos 18 anos. Então o romance acabou.

O amor, não.

E depois de muitos anos de silêncio – porque amor assim não se mata, não se tira, só se esquece, devagar e lentamente. -, foi tudo como ela tinha imaginado.

Era um evento e ele, palestrante.

Depois da palestra ela notou que não havia mais nada, não havia mais correntes, não havia mais medo, e foi cumprimentá-lo.

Tomaram um café. Ela contou como as coisas tinham mudado, como era uma mulher formada, independente, que morava sozinha, que tinha seus próprios desejos e vontades, a maioria deles pequenas bobagens realizadas com um pouco de trabalho duro mês a mês.

Ele ouviu, calado e sorrindo.

- Não vai me convidar para jantar? -, ela disse, cheia de orgulho. Mas poderia jurar que era inocente.
- Não.
- Por que?
- As coisas acabaram por algum motivo. Jantar não vai trazer nada de volta. -, ele disse sem raiva nem dor, levantando e caminhando devagar.
- Mas eu mudei!
- E esse é o maior sinal que nada mudou.

    Conto 04

    Há muito, muito tempo, havia um jardim.

    Nem sempre foi um jardim. Já tinha sido um reino antes. Uma civilização. Mas não sobraram muitos vestígios daquela cidade justa e seus governantes gentis.

    Mas sobrou o jardim.

    No começo ele era pequeno, mas o sol brilhava e havia brotos por todos os lados. Muitos nem pareciam brotos.

    Depois, surgiu o lago. Um grande lago de águas cristalinas que refletiam o azul do céu ou o prateado da lua.

    Próximo ao lago estava a maior árvore do jardim: imponente e única em altura e raio e copa, abrigava os passantes em dias de chuva.

    Grande que era, sustentava um balanço cujas cordas eram rodeadas de flores de trepadeiras que desabrochavam na primavera.

    Então veio a chuva e tudo floresceu.

    (pode ser por isso que os dias cinzentos eram os favoritos)

    (pode ser pelas tardes no balanço que a chuva ainda é linda e alivia os pesos das costas. Pode ser pelo arco-íris)

    Eu gostaria de parar por aqui e lhes deixar com essa sensação gostosa de segurança, mas isso seria traição. Pois não houve. Não posso dar o que não tenho.

    As raízes cresceram, as árvores e plantas puderam andar. E com a sua liberdade, prenderam tudo de duas pernas que andasse ali.

    Não houve alternativa: foi necessário sair e trancar o jardim para ser livre.

    Nem sabia que existia outro mundo do lado de fora, mas dizem que é o real.

    Duvido.

    Conto 03

    “Say goodbye with no simpathy”

    Muitas coisas precisam ser arrancadas sem dó. Porque quando há dó, o sofrimento é prolongado. Ironicamente.

    Há poucas formas de se esquecer um amor, mas é sabido que as mais eficazes são

    1. Um outro amor
    2. O tempo
    3. Ódio.

    E há certos tipos de amor imunes ao tempo – bom dizer – como pokémons fantasma são imunes a ataques físicos.

    Amor dói. Sufoca.

    E passa.