Tudo que você queria saber – ou tudo que eu quero compartilhar depois de ler.
A) Notas sobre esse post
- Escrevi à mão, no meu caderno, na Starbucks, por isso ele já está tão pequeno quanto poderia.
- Haverá spoiler, invariavelmente. Se você não leu As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis, não leia esse post. Além disso, ter visto os filmes ajuda.
- Escrevi contando e criticando única e exclusivamente para o MEU bel prazer. Então não sei qual a real utilidade desse texto e ele não tem pretensão nenhuma. Se quiser saber tudo, tudo mesmo sobre Nárnia, veja a Wikipedia e o site Mundo Nárnia.

B) As histórias que o livro e o cinema contam
O volume único d’As Crônicas de Nárnia é composto por sete romances, dispostos na ordem cronológica da história:
B1) “O sobrinho do mago”, 1955 – A criação do universo. Como tentei ler Simarillion, posso dizer que Lewies e Tolkien, amigos que eram, tinham idéias semelhantes quanto à criação do universo: música, a sinfonia do nascimento, da vida. Essa é a história de Digory (o velho senhor do 1º filme), sua amiga Polly e da Feiticeira Branca.

“Se um leão falasse, nós não entenderíamos o que ele diz”. No primeiro livro, o tio de Digory era mau e interesseiro. Então ele foi se convencendo que Aslam era um leão grande, assustador e falava coisas sem sentido, até chegar ao ponto que ele realmente não entendia nada além de rugidos.
B2) “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, 1950, a história do primeiro filme. A adaptação para o cinema é perfeita. Não há furos no roteiro, só pequenos detalhes, como o fato de Digory ser mais amável (ainda) no livro. De resto, é possível relembrar o filme enquanto se lê. É a história dos quatro reis: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, desfilando na nossa imaginação.

B3) “O Cavalo e seu menino”, 1954, mostra que nem só de narnianos o mundo mágico é habitado, mostrando os Calormanos, um povo mais sóbrio, sério e até mais cruel do que os narnianos. Esse é uma história que corre durante o reinado dos 4 reis e começa a apresentar as facetas de personalidade de Susana que o segundo filme (o próximo) desconsiderou.
B4) “Príncipe Cáspian”, 1951. A volta dos quatro reis para ajudar Cáspian a governar contra seu tirano tio Miraz. Mais uma adaptação fabulosa para o cinema (pelo menos nos primeiros 95% de filme). Vou falar: de acordo com o livro, não tem como o beijo entre Susana e Cáspian acontecer. E não me venha com “Ah, mas no cinema precisava…”, porque no livro Lúcia e Susana ficam o tempo todo com Aslam e não participam de nada. Não dá tempo de ficarem próximos. Susana tem outra personalidade, ela não é brava ou heróica, é uma mocinha, toda política. E isso acaba com o grand finale.

B5) “A Viagem do Peregrino da Alvorada”, 1952. Lúcia e Edmundo voltam para Nárnia com seu primo Eustáquio para ajudar Príncipe Cáspian a encontrar e vingar o desaparecimento de 7 reis graças a seu cruel tio Miraz. Eustáquio aprende a ser um garoto mais legal. Esse vai ser o próximo filme, lançado no fim de 2010.
B6) “A Cadeira de Prata”, 1953. O Príncipe Rillian, filho de Caspian X, desaparece, então Eustáquio e sua amiga Jill voltam para Nárnia para encontrá-lo. Quem ganha um caráter melhor agora é Jill.
B7) “A última batalha”, 1956. Pense em apocalipse. Não é assim que você vai pensar quando começar a ler a história de um macaco que se acha o espertão quando fantasia um burro de leão e o faz passar por Aslam, mas é isso que você vai encontrar no final. E esse final daria um epic #FAIL no cinema, tanto pela personalidade de Susana quanto por mostrar todos os personagens principais.
Quando eu comecei a escrever esse post, fiquei com bronca e pensei que a Disney tinha escolhido os livros a esmo. Mas depois da pesquisa das datas, notei que esse é mesmo o miolo da história. Eles nunca vão fazer filmes dos outros livros – pelo menos não com tanta fidelidade à história – mas pelo menos o que fizeram foi muito bem feito.
C) Aspectos psico-sociais – o que Lewis ensina
Você pode me julgar infantil dizendo que eu gosto de romances para crianças e ainda vai ter sua parcela de razão. Mas você também pode ver Nárnia com olhos um pouco mais maduros.
Impossível não comparar a obra à Bíblia. Aslam é Deus, Tash é o diabo. Vai da criação ao apocalipse. Os valores são claros: os bons, os corajosos, os nobres de espírito estão sempre ao lado de Aslam. O mau, a ganância e o poder irresponsável, do outro. Lewis diz:
Aslam é uma visão alternativa de Cristo e mostra que esta seria supostamente uma forma que Jesus assumiria se fosse até um país fantástico como Nárnia.
O último livro é especialmente forte porque mostra quando as pessoas (ou criaturas, no caso) param de crer em Aslam. Quando você lê, mal pode acreditar, mas no fim das contas faz sentido porque o Grande Leão apareceu umas sete vezes em todos os tempos, só, e nem pra todo mundo. Sua História não é mais do que um punhado de lendas.
Todas as histórias encorajam o leitor a ser uma pessoa melhor. Mostra que os bons valores trazem um bom futuro e que fazer coisas erradas nos deixam com vergonha e arrependidos, mas assumir que errou e pedir desculpas é o melhor a fazer. Por isso é uma boa leitura para crianças.
As histórias mostram um mundo paralelo, onde somos mais maduros e mais fortes. Onde, no fim, dá certo e nos momentos mais difíceis há esperança. Por isso, é um bom lembrete para os adultos.
Suzana merece uma atenção especial. Ela não era má, mas também não era tão nobre ou humilde. Ela parou de acreditar em Nárnia ou em Aslam e por isso não foi para o mesmo céu que os outros – e pior, ficou sozinha. Neil Gaiman escreveu outro final para ela (“O problema de Susan”, no livro Coisas Frágeis), mas não é mais reconfortante e não leia se não tiver estômago (fica a dica).
Enfim, é uma obra fantástica, que vale a leitura. Uma fantasia bem amarrada e a leitura flui super bem (só fiquei com preguiça de ler o começo da última história, porque parece que não tem muito a ver, as coisas demoram para acontecer, mas vale a pena por causa do final). É gostoso se distrair com o mundo dos reis justos e animais falantes. Sinceramente, eu queria que fosse real.