Bullying e nosso crescimento interpessoal

Eu estou oficialmente de férias e isso me afastou um tanto da internet. Não pelas férias, mas pelo Quando Nietzsche Chorou, que tem atraído muito da minha atenção e reflexão. Então até me perguntaram sobre o Zangief Kid no meu formspring e eu, por fora, não soube responder apropriadamente.

Não é difícil conhecer um meme ou novidade na internet e nem é preciso perguntar: as pessoas vão falar, os links estão aí e se tudo mais faltar, basta uma pesquisa rápida para se inteirar no assunto. Fiquei com preguiça, mas ele veio até mim: o post do Eden sobre o Zangief Kid explica tudo que eu precisava saber pra comentar.

Assim como muitos de vocês, eu também sofri bullying na escola. Eu era loirinha, com cara de boba, toda vermelhinha e quase gordinha. Além disso, tinha uma mania irritante de andar perto dos adultos e professores e de querer ser a melhor da classe. Mandona e sabe-tudo. Eu também andava com as pessoas mais oprimidas, mais chatas, mais tristes e solitárias, por solidariedade.

Com três anos um menino me batia todos os dias na escolinha. Um dia peguei a mão dele antes de me acertar o tapa e disse: “É só carinho!”. Ele ficou sem ação. As professoras, também.

Aos doze, ganhei o troféu de menina mais feia da sala. Éramos vinte alunos e eu devia ser mesmo a menina mais feia da escola. Um adulto, certa vez, me disse que isso poderia ser implicância porque eu andava com os adultos e era queridinha dos professores. Outro adulto me fez admitir que isso é brincadeira. Meus sentimentos quanto a isso são confusos porque com doze anos eu era só uma criança e essas coisas não eram sérias para mim.

As coisas começaram a ficar sérias com quatorze. Uns gostavam de outros que gostavam de terceiros e nenhum amor era correspondido. Estranho, pensando agora: isso fez mal para todos nós. Meus colegas, na altura da oitava série, ridicularizavam as séries anteriores, como se eles não tivessem passado por elas poucos anos antes. Eu as acompanhava e era ridicularizada também.

No colégio, claro, foi pior. Eu era filha de funcionária, namorada do menino mais detestável, inteligente e intrusa. Tinha poucos colegas. Não sobrou nenhum amigo daquela escola, por escolha minha ou deles, não sei, mas éramos diferentes de qualquer forma.

Um senhor uma vez me disse que talvez por isso eu estivesse deprimida: porque hoje sentia falta de coisas que não pude aprender antes, por andar muito com os adultos e pouco com as crianças.

Pode ser: a melhor coisa de passar dos vinte é que você não precisa mais viver com pessoas da sua idade. Desde cedo meus professores sabem que sou madura demais pra isso – e por favor, não pensem que me orgulho: não se encaixar na sua idade é mais um castigo que uma bênção. Rápida demais pra minha série. Mas já passou. E agora, depois dos vinte, tenho amigos de todas as idades e adoro todos: tanto os mais novos quanto os mais velhos. Se livrar desse fardo de ter idade fixa, série fixa, foi uma das poucas coisas boas de ser adulto.

O que isso tem a ver com bullying e o caso do Zangief Kid? Bem, vocês notaram como eu sempre fui passiva e, diferente do novo herói mundial, nunca reagi a provocações – não com violência física. No máximo, quando comecei a trabalhar e notei que estavam me menosprezando por ser mulher, aprendi a responder como se deve e provar meu próprio valor. Mas não bater. Não devolver na mesma moeda, descer ao mesmo nível.

Zangief Kid foi aclamado por ter tido coragem de fazer o que muitos de nós queríamos ter feito quando éramos crianças. Mas, se de fato tivéssemos feito, teria sido melhor? Essa criança vai crescer achando que jogar uma pessoa que lhe provoca na calçada resolve todos os problemas?

Por outro lado, se ele aguardasse, guardando a mágoa e sendo tão adulto assim quanto eu espero, não cresceria para ser um distribuidor de blocks acuado mas se passando por inocente, o dia todo atormentado por pequenas e grandes enchessões de saco em uma rede social qualquer? Teria ficado deprimido e reprimido? Estaria procurando seu lugar no mundo enquanto outros bilhões dormem tranquilamente depois de ter deixado a bandeja na mesa para a tia da limpeza ter algo para fazer?

 

Em Star Trek, Spock sofre de bulliyng em sua escola em Volcano por ser meio-humano

 

Não sei. O bullying sempre existiu e se existia em Volcano, uma sociedade tão avançada e controladora das próprias emoções, não tenho esperanças que deixe de existir com a nossa evolução como seres humanos. “Os animais brincam de brigar”, me disse o senhor naquela tarde tão esclarecedora, “para conhecer sua força e seus limites. Quando pode atacar e principalmente quando têm de recuar”. O bullying é uma forma de desenvolver nossas habilidades sociais. Uma forma errada, uma forma que eu discordo plenamente, apesar de já ter praticado, também. Os nerds que zoam os populares. Já aconteceu.

O fato é que temos uma dificuldade estarrecedora de nos relacionarmos com outros seres humanos. É a nova prova do século. A internet ajuda ou piora? Com a internet, selecionamos nossos amigos de acordo com nossos interesses e bloqueamos, excluímos quem nos trariam alguma dificuldade para evoluírmos interpessoalmente. Como serão as pessoas quando não for mais necessário lutar por si próprio?

Esse é o primeiro de “pequenos” posts reflexivos que tenho escrito no iPhone desde o começo da leitura de Quando Nietzsche Chorou. Nenhum deles têm um final conclusivo e todos eles são cheios de perguntas, para que possamos pensar em suas respostas. Pensar sozinha não traz solução.