Tenho certeza que o mercado de trabalho brasileiro não é muito confortável para a maioria de nós (apostando que uma pequena parcela – se existir – dos meus leitores é político ou pastor), mas é inegável que eu convivo com as profissões mais fodidas-e-mal-pagas que eu tenho notícia: minha irmã é vendedora de loja de roupas, meus amigos são programadores e a outra parte, eu inclusa, trabalha em agência de publicidade.
Quanto à loja de roupa, não tem muito o que falar: comércio é um saco – e a única loja que trabalhei viu as minhas poucas habilidades vendedoras somente por um mês. Foi péssimo pra mim, não dou pra isso, mas a Laís tá indo bem. O pessoal tem de trabalhar de fim-de-semana, em horários estranhos, mas no fim das contas, eles recebem direitinho pelo que trabalham (espero).
Eu acho que não conheço um programador não-nerd, então ficar na frente do computador pesquisando é normal. Mesmo assim, aqui já começam a acontecer umas coisas que me irritam profundamente: amigos que passam semanas viajando a trabalho, trabalhando 20h por dia (sim, você leu certo), e os que, não raro, surtam em pontos extremos de stress. Aliás, acho que é nessa parte do stress que o bicho pega: meu pai, ex programador de Visual Basic, se aposentou 10 anos antes do tempo, com o programa de aposentadoria voluntária do Banco do Brasil, e demorou cinco anos pra programar de novo.
“Só agora, quando eu abro o programa, não lembro mais da atmosfera de trabalhar no banco. Agora dá pra voltar a brincar”
Ele disse uma vez pra mim e começou a estudar Java (depois largou, mas “A vida e obra do meu pai fodão” é um outro post que ainda não existe). Enfim, meus três amigos mais próximos programadores andam surtando e fazendo faculdade. Ao mesmo tempo.
Mas eu sempre trabalhei em agência, três pequenas e duas grandes. O engraçado é que na maior delas é que o trabalho foi mais desumano. Desumano, sim. Não vem torcendo o nariz, falando “imagina, Marta, você está exagerando”. Eu estaria, se não rolasse esse orgulho:
“É tenso qdo você olha o histórico de alguns projetos e vê atividades disparadas às 03 da manhã.. Tenso, porém, sensação de dever cumprido o/”
Você acha isso bonito? Deixa eu te contar uma novidade: você não recebeu hora extra. Ah, o trabalho engrandece o homem? Ah, sua carreira está melhorando? Puxa, parabéns. Por outro lado, lamento, eu acho você bastante bobo para aceitar que façam isso com você.
Quando um ser humano se revoltou contra o entra as oito, sai as oito e recebe oito horas/dia de salário, ficou tão manchado que saiu da agência. E certo estava ele. Não entendo esse orgulho de “virei a noite!”, “tô há 32 horas trabalhando!”, “quase morri mas entreguei!” se você não vai realmente receber por isso – seja dinheiro ou portfólio, numa exceção (mas eu sei que no caso é recorrente, é quase diário).
Já ouvi que a gringa compara agências do Brasil com China e Índia. Que os orientais me perdoem, mas nosso objetivo não é montar. Nosso objetivo é criar, e nós temos capacidade para isso. Só que nossos chefes continuam nos tratando como se fôssemos macaquinhos que produzem e tudo bem não ver a família. Precisa entregar o job. Você não vai me deixar na mão, certo?
(Daí eu cansei e mudei de agência. Hoje eu tenho vida, dois blogs (mais um em criação), namorado e podcast. Fiz curso, saio de fim de semana e ganho menos.)
Quando eu falei que ia trocar de emprego, ou sempre que eu reclamo disso, minha mãe tem uma fita gravada e dá play: “Mas emprego hoje em dia está tão difícil, Marta… Tem que aguentar, emprego é chato mesmo. É assim mesmo, não tem jeito”. Ok, tem que trabalhar? Tem. Tem dia que é chato? Claro. Mas eu não vou perder vida porque “é assim mesmo”. Se for assim mesmo, eu largo tudo e vivo de freela. Problema resolvido, com louvor.
Somos tão jovens e a maioria de nós tem gastrite. A maioria de nós usa óculos. A maioria de nós tem algum tipo de LER ou já sofreu dores por isso. E nenhum de nós passou dos 30. Pense nisso.