Conto 02

Se esparramava no sofá e brincava com palavras como uma criança brinca com peças de montar: sem pretensão, mas poderia sair uma casa, um castelo, um monstro, ou nada.

Era noite e a primavera estava chegando. A estação favorita. Gostava de contar os próprios aniversários em primaveras, mas achava bobo e nunca assumiu para ninguém.

Muita coisa havia mudado, mas sabia que esse era o maior sinal de como as coisas estavam perfeitamente iguais e intocadas. Isso gerava um misto de frustração e segurança que pouca metáfora conseguia explicar.

Um piercing, talvez. Por fora é uma mudança e pode até chocar, mas quem faz sabe que no fundo é só tirar e tudo volta a ser como antes.

“Who will be there to catch me when I stumble, when I fall?”

Muitas músicas lembravam a solidão. Muitas frases diziam o que queria dizer.

Conto 01

Ela era forte. Poderia ser muitas outras coisas, mas antes de tudo – e apesar de tudo – era forte.

Não sabia de onde a força vinha, mas via para onde ela ia, todos os dias, todas as noites, em fantasmas brigas desavenças amores-perdidos problemas e com o tempo.

Mas não notava, não ligava, como uma pilha que continua funcionando sem notar o marcador no zero.

E era uma cidade muito, muito grande e todos os dias ela se sentia pequena e cada vez menor. Mesmo assim, cada dia mais sufocada, como se o mundo estivesse diminuindo junto, como se ela fosse perdendo o espaço que nunca teve.

Se ela pudesse olhar para a própria vida, veria um trem lotado indo do nada para lugar nenhum, onde nenhuma lembrança é deixada para trás.

Se pudesse ver esse trem, não seria tão forte. Não teria ido tão longe. Não teria carregado tanto peso.

E provavelmente seria muito mais feliz.

Personagens

Eram oito e poucos da manhã e uma garota sentou ao seu lado. Ele gostava muito de conversar, então foi conversando com ela. Ela parecia gostar de conversar também, mas na verdade ela sabia que ele só precisava disso. “Olha, eu sou especial”, então ela teve certeza que fez a coisa certa.

Eram nove da noite de uma sexta-feira pré-feriado e o metrô de São Paulo estava cheio de gente com mochilas grandes que o faziam parecer duas vezes mais lotado. Ele não levava nada além de seus pertences em um casaco sem mangas. Se enrolava em um pano salmão e suas sandálias eram de borracha. Não aparentava frio, fome ou nada além de uma calma que quase incomodava. Ninguém sentou ao seu lado, então ela sentou. Ele desceu uma estação antes. Nunca mais se viram.

Trem

Eram onze e meia da noite de uma sexta-feira e os que não estavam cansados, estavam empolgados para seus programas de fim-de-semana. Ela cabia no primeiro grupo como uma luva, todas as suas energias já tinham sido usadas aquela semana. A moça entrou, maquiada exageradamente, com batom nos olhos. “Gente, eu sei que eu tô aqui enchendo o saco de vocês”, e a cansada sabia que era verdade, então aumentou o volume do mp3 player.

Eram quinze para as duas da tarde de um sábado ensolarado onde a cidade deveria estar vazia, mas não estava. O ex-marinheiro estava sentado e viu um casal se aproximando: “A loja de celulares já abriu?”. O moço foi simpático ao responder (acendendo um cigarro) que não. Aproveitou a simpatia para conversar um pouco – aquele monte de cimento de São Paulo esfriou não só o clima como também as pessoas. Contou dos quatro filhos e deu conselhos para a garota: “Os homens sempre querem algo em troca. Você acha que as mulheres têm liberdade hoje por quê? Porque é cômodo para os homens!”. Ela não acreditou nem ligou, mas sorriu e disse que ia pensar nisso. Era mentira.

Mais um dia

Sentou para calçar os sapatos, olhou para a janela e suspirou profundamente: via a manhã cinzenta de cores mortas há tanto tempo que parecia uma vida inteira. Sabia que não era. Ficou tentando lembrar como era quando tinha sol, ficou esperando a primavera fazer mais efeito além do dia no calendário. Tudo isso de forma muito literal.

Com fone de ouvido, tentou o video-game mas se irritou facilmente, então correu pra Narnia – a aventura estava quase acabando. Quando olhou para fora, viu a mesma coisa dos últimos dias: a chuva preguiçosa, o céu cinza, as ruas sem cor.

“A chuva não está mais bonita…”. Ela era tão otimista que via beleza até na chuva, no caos de SP. Era até paciente com as outras pessoas, mas, a essa altura, nesses tempos que os dias se arrastam e você faz uma coisa querendo fazer outra, era mais difícil.

Enquanto tentava escolher entre o vídeo-game, o livro ou o caderno para acompanhá-la na outra parte da viagem, notou que havia mais pessoas do que o comum. Culpou a chuva – não: culpou as pessoas que não conseguem seguir suas vidas normalmente quando chove. Sentiu falta de Deus e não ligou.

Começou na fila para as catracas. Um passe de papel (quase arcáico) enroscou e uma mulher lá atrás esbravejou “É, sempre tem alguma idiota pra prender o passe!”. Ela não podia fazer muito, mas tomou as dores e disse alto “Não é culpa dela!”. Passou pelo bloqueio sem maiores problemas.

Ao descer as escadas, viu gente. Muita gente, nas duas plataformas.

Naquela hora, teve vontade de desistir. Falou alto “Eu nem vou fazer o que eu gosto, ainda tenho de passar por isso?!”, tendo certeza que esse era mais o pensamento da maioria dos passantes do que dela mesma.

Afinal, até gostava do que fazia, quando fazia alguma coisa. Mas, assim como a previsão do tempo era previsível,  seu dia monótono era igualmente previsível. Isso a entediava previamente, como quem antecipa um livro para uma fila de banco.

Aguardou poucos trens e a multidão se dissipou. Entrou, sentou e se decidiu pelo livro, já que estava sem o encanto para escrever. Decidiu por não manter o mau-humor.

Ao sair e ver o dia cinza, todos os pensamentos desanimados voltaram, como o Super Homem perto de kriptonita. Não era cansaço, nem medo sentia mais. Talvez uma indiferença, talvez um descompasso, algo assim.

Borboleta

Então, rezou. Assim, na frente de todo mundo mas dentro dos seus próprios pensamentos. Pediu desculpas, como sempre, por muitas vezes não acreditar em lá muitas coisas. Não se lembra se pediu alguma coisa; provável que sim. Caminho, luz, força, calma. Essas coisas que a gente pede pra alma.

Não se sentiu mais forte, acompanhada ou coisa que o valha. Só teve mais certeza do que tinha a fazer.

Não há muito o que fazer, mas o que há é trabalhoso.

A vontade é de sentar e esperar o tempo passar, mas a impressão é que o tempo não vai passar se ficar sentada. Não dessa vez.