Sentou para calçar os sapatos, olhou para a janela e suspirou profundamente: via a manhã cinzenta de cores mortas há tanto tempo que parecia uma vida inteira. Sabia que não era. Ficou tentando lembrar como era quando tinha sol, ficou esperando a primavera fazer mais efeito além do dia no calendário. Tudo isso de forma muito literal.
Com fone de ouvido, tentou o video-game mas se irritou facilmente, então correu pra Narnia – a aventura estava quase acabando. Quando olhou para fora, viu a mesma coisa dos últimos dias: a chuva preguiçosa, o céu cinza, as ruas sem cor.
“A chuva não está mais bonita…”. Ela era tão otimista que via beleza até na chuva, no caos de SP. Era até paciente com as outras pessoas, mas, a essa altura, nesses tempos que os dias se arrastam e você faz uma coisa querendo fazer outra, era mais difícil.
Enquanto tentava escolher entre o vídeo-game, o livro ou o caderno para acompanhá-la na outra parte da viagem, notou que havia mais pessoas do que o comum. Culpou a chuva – não: culpou as pessoas que não conseguem seguir suas vidas normalmente quando chove. Sentiu falta de Deus e não ligou.
Começou na fila para as catracas. Um passe de papel (quase arcáico) enroscou e uma mulher lá atrás esbravejou “É, sempre tem alguma idiota pra prender o passe!”. Ela não podia fazer muito, mas tomou as dores e disse alto “Não é culpa dela!”. Passou pelo bloqueio sem maiores problemas.
Ao descer as escadas, viu gente. Muita gente, nas duas plataformas.
Naquela hora, teve vontade de desistir. Falou alto “Eu nem vou fazer o que eu gosto, ainda tenho de passar por isso?!”, tendo certeza que esse era mais o pensamento da maioria dos passantes do que dela mesma.
Afinal, até gostava do que fazia, quando fazia alguma coisa. Mas, assim como a previsão do tempo era previsível, seu dia monótono era igualmente previsível. Isso a entediava previamente, como quem antecipa um livro para uma fila de banco.
Aguardou poucos trens e a multidão se dissipou. Entrou, sentou e se decidiu pelo livro, já que estava sem o encanto para escrever. Decidiu por não manter o mau-humor.
Ao sair e ver o dia cinza, todos os pensamentos desanimados voltaram, como o Super Homem perto de kriptonita. Não era cansaço, nem medo sentia mais. Talvez uma indiferença, talvez um descompasso, algo assim.

Então, rezou. Assim, na frente de todo mundo mas dentro dos seus próprios pensamentos. Pediu desculpas, como sempre, por muitas vezes não acreditar em lá muitas coisas. Não se lembra se pediu alguma coisa; provável que sim. Caminho, luz, força, calma. Essas coisas que a gente pede pra alma.
Não se sentiu mais forte, acompanhada ou coisa que o valha. Só teve mais certeza do que tinha a fazer.
Não há muito o que fazer, mas o que há é trabalhoso.
A vontade é de sentar e esperar o tempo passar, mas a impressão é que o tempo não vai passar se ficar sentada. Não dessa vez.