Tortura – parte 01

Esse é um relato para ser mantido em segredo até segunda ordem; minha morte e morte do meu marido; fim do regime atual e total segurança de minha filha; ou para ser utilizado como provas contra os que a mim e aos meus queridos, lesaram.

A primeira pessoa sempre se refere a mim, Suzana Carneiro, em todas as instâncias que seguem. Asseguro toda a veracidade da informação descrita a seguir, sem qualquer ficção.

Que esse relato sirva como inspiração para as gerações futuras, evitando, assim, que todo horror que vivemos por esses tempos venha a se repetir.

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Conheci meu marido graças a um amigo em comum. Doutor Marcelo, advogado da família, cansou de advogar e abriu um jornal. Foi uma grande oportunidade para estágio, já que eu sempre gostei de escrever, e acabei ficando por muitos anos.

Cássio apareceu um dia qualquer, fazendo uma coluna qualquer. Não prestei a menor atenção nele, apesar de trocarmos algumas conversas e até almoçarmos junto a outros colegas um dia ou outro. Nada demais.

Nós dois sofremos grandes decepções amorosas. Um dia ele me chamou para jantar. Um beijo aconteceu, tímido e assustado. Nunca mais nos separamos.

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Casamos quando deu, mais por necessidade do que por amor, porque o amor sempre pareceu óbvio e nunca foi motivo para nada: foi combustível. Morávamos em um pequeno apartamento e éramos felizes juntos.

Nosso mundo era muito maior que aquele apartamento. Enquanto meu mundo era sociável até um ponto e recluso em bibliotecas por outro, Cássio participava de um pequeno partido político, escrevia algumas resenhas no jornal e trabalhava na fábrica em algum cargo burocrático.

O Partido era realmente uma parte muito pequena das nossas vidas e mal discutíamos política, até que aconteceu. Nosso país, súbito, era uma ditadura. Infelizmente, um governo repressor, muito diferente do que o Partido esperava. Eles se sentiam traídos pelo Governo que eles escolheram e ajudaram a colocar no poder, e agora lhe dava as costas.

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Jamais impedi meu marido de participar de suas “coisas políticas”. Nunca entendi nem me interessei. Meus pais sempre me deram o conforto que precisei e, depois de algum trabalho, consegui o sustento que precisava para me manter como adulta. A política era algo distante.

Mas nunca foi para Cássio. Eu não poderia culpá-lo ou esperar que ele parasse com isso. Os tempos agora eram mais difíceis e onde mais se precisava de partidos de oposição.

A ditadura não agradou ninguém e mesmo assim as manifestações eram poucas, altamente reprimidas e extremamente perigosas. Cássio era um poço de coragem e orgulho e cada vez que falava do Partido e suas causas, seus olhos brilhavam e seu espírito inflamava como se fosse sua própria vida. Eu tinha certeza que o mataria se o mantivesse comigo e que ele poderia morrer se fosse para as ruas; mas eu nunca poderia ser a responsável pela morte do homem que amava.

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[parte 01 de 05 - próxima]

Conto inacabado – parte 3 (final ou inicial)

Eu ouvi muitas opiniões a respeito da parte 1 e da parte 2 do conto inacabado e resolvi reescrever. Mas como já postei as duas partes aqui e o pessoal curtiu e tal, achei bacana postar todo o processo da escrita. Vai que nunca chega no fim, né? Vai que chega e fica legal? Eu não tenho muita certeza do rumo que o conto vai tomar, mas agora tenho pelo menos a alma da coisa. Espero que vocês gostem e adoraria se me mandassem todas as sugestões do universo :D

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A volta para Zirmilion

Personagens:

Pedro é um Zirmiliano jovem para seus padrões. Teria aproximadamente trinta anos caso fosse um terráqueo. Ele foi expulso de seu planeta e partes de sua memória foram apagadas, fazendo com que ele não se lembre o porquê. Como se desenvolve diferente dos terráqueos, seu exílio dura centenas de anos na Terra, mas apenas dez anos zirmilianos. Ele se lembra apenas de sua mãe e de uma garota misteriosa, que ele acha que tem alguma ligação com seu planeta natal, do qual não se lembra muito bem e nem sabe se deve mesmo voltar. Acostumou a se camuflar entre os humanos e passa os dias sem pensar muito nisso.

X10-221Yb, a misteriosa garota que paira nas lembranças de Pedro, é uma cientista em ascenção em Zirmilion. Talentosa e mais inteligente que a média para seres femininos da sua idade, sua ambição é conseguir altos postos entre os cientistas. Para tanto, é capaz de fazer qualquer sacrifício, como ajudar nas casas de detenção, onde as memórias dos exilados eram apagadas. Quando recebe o chamado para ir em um planeta distante ajudar um cientista ancião, não perde a chance de se destacar no meio acadêmico.

X10-001YY, o cientista ancião. A série X10 é a décima geração de zirmilianos, 001 é o número de série e YY ou Yb indicam se a espécime é masculina ou feminina. A unidade 001 apenas teve mais anos para aprender do que as outras unidades. Seu exílio voluntário na Terra o possibilitou viver ainda mais e ele conseguiu cumprir sua missão solitária. Uma alma bondosa e sábia, mas não muito sociável.

Trama:

Zirmilion era um planeta rico com uma sociedade próspera. Infelizmente, um meteorito trouxe uma doença que fazia os habitantes do planeta ficarem mais agressivos, infantis, gananciosos e isso culminou na destruição do planeta pelos próprios zirmilianos.

Preocupado, a unidade X10-001YY, um dos mais antigos e sábios habitantes de Zirmilion, viaja para o terceiro planeta do sistema solar, em busca de paz e matéria prima para criar um composto que salvaria seu planeta natal.

Graças a rotação diferente entre os planetas e sua composição biológica que o fazia ser quase eterno na Terra, o cientista durou por muitas centenas de anos e viu, afastado, a humanidade se desenvolver lentamente. Enquanto isso produziu a sua fórmula.

Mesmo assim, o tempo passou. A unidade 001YY ficou velha e não pode voltar ao planeta. Conseguiu, mesmo com dificuldades, contactar a unidade X10-021Yb, uma jovem cientista assistente, para levar a fórmula de volta e restaurar a paz em Zirmilion.

A cientista 221Yb era brilhante para sua idade e ajudava o governo de Zirmilion a controlar os doentes infratores. Um deles era Pedro, que sofreu o procedimento padrão: lacunas de sua memória foram apagados e ele foi exilado do planeta em uma capsula, que caiu na Terra.

Pedro apenas tenta sobreviver aos seus dias lentos, se camuflando e fazendo se passar despercebido. Quando nota a unidade 221Yb e a liga com suas frágeis memórias do passado, se desespera para saber mais sobre si mesmo e sua vida tem significado novamente. Sua doença e seu longo contato com humanos, entretanto, são os maiores desafios que Pedro precisa superar para voltar para casa.

A unidade X10-221Yb tem a importante missão de salvar Zirmilion, mas Pedro não vai deixá-la até saber tudo a seu respeito. Na inquietante viagem de volta, ambos vão amadurecer – ou se destruir.

* * *

Note que eu mudei o nome da cientista pra coisa ter um bom motivo pra existir. Eu já tinha pensado que o “nome” dela era só uma identificação lógica, mas precisou bater com o nome do cientista. Sim, ele é THIS velho. Vou explicar quando escrever.

Agora é só começar a escrever, né :D Vou manter a forma: o Pedro vai ser sempre primeira pessoa. O velho em terceira pessoa. Agora, a cientista… hm… talvez eu tenha outra forma para ela. Relatórios, talvez. Bem a cara dela.

E eu já pensei no final e vai ser ÓSSOM. Eu espero.

Todo dia um capítulo? Who knows… :) Hope so!

Como todos os outros

Travou o computador, se espreguiçou com seu corpo magro na cadeira e leve como sempre, se levantou.

Foi até a janela e viu seu reflexo: alta, cansada. Viu a chuva lá fora. Chovia há dias.

O mundo era quieto.

Abriu a janela.

O mundo era frio.

Acendeu um cigarro, respeitando e contradizendo a quietude gelada do mundo ao mesmo tempo que seu corpo clamava por som e calor.

Tragou pensando na vida. Nada lhe veio à mente.

Repetiu o processo até o cigarro acabar.

Jogou fora a bituca, pegou um café e voltou ao trabalho.

Conto inacabado parte 2

(esse conto começa aqui)

Ele estava velho e doente. Apesar da Terra ter algumas coisas que favoreciam seu corpo zirmiliano, ainda assim sua genética era mais favorável a algumas doenças que passavam despercebidas à maioria dos terráqueos.

Mesmo assim, ainda estava vivo – onde vivo  significa com um objetivo. Seu objetivo era claro e pairava na sua mente todos os dias, já há algumas semanas, mas ele não sabia como começar a agir.

Nada que o destino não ajudasse.

* * *

A vida na Terra já foi mais fácil. Há alguns séculos viver era simples. Agora, eu preciso procurar documentos. Preciso arranjar dinheiro. Preciso de uma casa e um trabalho.

Vejo a Terra evoluindo devagar, como meu planeta natal. Ah, se eu lembrasse seu nome… Bobagem: essa bola azul não tem tecnologia nem para ir aos seus planetas mais próximos.

E quem sabe eu nem seja de outro planeta. E aqueles sonhos sejam besteiras minhas. Talvez eu devesse arranjar um emprego de uma vez e passar com um analista.

* * *

Zirmilianos não são, fisicamente, parecidos com terráqueos. Eles têm, entretanto, uma composição molecular que facilita mudar as formas dos seus corpos de acordo com a visão dos humanos.

A unidade X10-21Yb percebeu rapidamente que se adaptaria melhor se a luz refletida no seu corpo retornasse uma imagem de um belo espécime feminino para os humanos, então se adaptou para as mais belas formas que pode encontrar na época.

As épocas passaram, as formas passaram, e ela se adaptou sem dificuldade. Era fácil passar despercebida, era fácil ser notada quando queria, era extremamente fácil conseguir favores.

E um ser extra-terrestre precisa de muitos favores nos dias de hoje.

(continua…)

Conto inacabado

(eu precisava digitar para limpar minha mesa).

Não sei quanto tempo faz desde que deixei minha terra natal. Contei dias, semanas, meses, muitos anos e então perdi as contas.

Mas me lembro bem: minha terra natal era quente e aqui é gelado. O governo era outro. Os anos demoravam mais tempo para passar.

Ao me expulsarem, apagaram boa parte da minha memória. Não lembro quem eu era; mas lembro coisas que deixaram aqui, seja por descuido, seja por tortura.

Não sei meu nome, mas lembro de duas pessoas especiais: minha mãe… e ela.

Quem é ela? Por que ela é importante? Depois de todos esses anos de exílio, ainda há algo importante lá?

* * *

O ciclo de vida dos zirmilianos é bem diferente dos terráqueos. Eles envelhecem muito mais devagar já em Zirmilion. Além disso, diferente dos humanos, oxigênio não é veneno para eles. Obviamente não existem muitos Zirmilianos na Terra, mas a unidade X10-21Yb não era a única, como pensava ser.

(continuo?) (continua aqui)

Meio termo, meio corpo

Quando a criança nasceu, o médico não soube dizer se era menino ou menina.

Em todas as sonografias, sempre a mesma notícia que deixava os pais na curiosidade: não era possível ver o sexo do bebê.

Era uma criança linda. Nasceu com olhos de um azul profundo e sobrancelhas tão claras que eram quase invisíveis. Era um bebê quieto, não chorava muito, ria de um jeito contagiante quando lhe faziam cócegas ou caretas. Adorava tomar banho. Ou talvez, adorasse ver sua mãe encharcada de tanta água que ia para fora da banheira.

Conforme os anos passavam, os pais não sabiam exatamente como sua amada criança se desenvolveria. Uma sobra de preocupação nos olhos do pai, vestígios de pena nos olhos da mãe. Aos doze anos, a criança usava sutiã. Aos catorze, sua mãe quis levá-la ao ginecologista.

Arruinada, agora a criança não sabia mais quem era, assim como seus pais nunca souberam se a chamavam de filha ou filho. Agora tudo fazia sentido, agora sabia por que era tão diferente. E os meninos que ela havia gostado conforme conversava com as amigas? E as amigas que diziam que o corpo dela (ou talvez ‘dele’) era bonito?

Resolveu continuar vivendo uma vida feminina. Nunca teria filhos. Nunca menstruaria. Era, na verdade, um homem. Mas nasceu com seios, e tinha medo de cirurgias para retirá-los, gostava de si! Deixou os cabelos crescerem. Seu corpo desenvolveu exatamente como o de uma mulher, exceto por aqueles detalhes inconvenientes que lhe faziam ser homem. Ou suficientemente homem para não ser chamado de mulher.

Isolou-se. Sempre simpática, gentil; mas não se mantinha em grupos de amigos ou grupos de estudo. Não poderiam saber quem ela era. Mas o destino faz seu trabalho e o livre arbítrio de escolher ser mulher excluiu outros possíveis caminhos diferentes.

Um rapaz, um homem completo, de verdade, apaixonou-se por ela.

Conversavam sempre, saíam algumas vezes, ela gostava tanto dele, queria tanto ficar com ele! Em sua mente, um dilema inimaginável. Conversou com seus pais, conversou com seus médicos. Ele havia se declarado, ela já não conseguia mais esconder seu segredo. Contou a ele. E nunca mais o viu.

Mulheres não se interessavam por ela e seus seios maduros. Homens a enojavam quando viam que era não era de todo uma mulher. Num determinado momento, não aguentou: bebeu uma, duas, três garrafas de vinho.  Uma lâmina na mão. Cortou os mamilos e a partir dali se dilacerou completamente. Nos pensamentos, sabia que sem aqueles seios seria uma pessoa normal. Tudo que ela (ou ele?) queria era ser normal.

Um vizinho do apartamento onde ela morava sozinha a encontrou tarde demais. A cena era horrível. Havia sangue por todo lado, provavelmente ela morrera pela perda de sangue. Seus pais jamais se perdoaram, pensando ter alguma culpa no destino de sua filha. Das outras pessoas que conhecia, nenhuma se lembraria dela. E, quando se encontrasse com os anjos, não se incomodaria de ser mandada ao inferno desde que fosse classificada como inteiramente homem ou inteiramente mulher. Só queria entender melhor a quem deveria poder amar.

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Na verdade, esse texto é da minha irmã, mas por algum motivo ela achou melhor não colocar no próprio blog, então cedi o espaço :)