Esse é um relato para ser mantido em segredo até segunda ordem; minha morte e morte do meu marido; fim do regime atual e total segurança de minha filha; ou para ser utilizado como provas contra os que a mim e aos meus queridos, lesaram.
A primeira pessoa sempre se refere a mim, Suzana Carneiro, em todas as instâncias que seguem. Asseguro toda a veracidade da informação descrita a seguir, sem qualquer ficção.
Que esse relato sirva como inspiração para as gerações futuras, evitando, assim, que todo horror que vivemos por esses tempos venha a se repetir.
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Conheci meu marido graças a um amigo em comum. Doutor Marcelo, advogado da família, cansou de advogar e abriu um jornal. Foi uma grande oportunidade para estágio, já que eu sempre gostei de escrever, e acabei ficando por muitos anos.
Cássio apareceu um dia qualquer, fazendo uma coluna qualquer. Não prestei a menor atenção nele, apesar de trocarmos algumas conversas e até almoçarmos junto a outros colegas um dia ou outro. Nada demais.
Nós dois sofremos grandes decepções amorosas. Um dia ele me chamou para jantar. Um beijo aconteceu, tímido e assustado. Nunca mais nos separamos.
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Casamos quando deu, mais por necessidade do que por amor, porque o amor sempre pareceu óbvio e nunca foi motivo para nada: foi combustível. Morávamos em um pequeno apartamento e éramos felizes juntos.
Nosso mundo era muito maior que aquele apartamento. Enquanto meu mundo era sociável até um ponto e recluso em bibliotecas por outro, Cássio participava de um pequeno partido político, escrevia algumas resenhas no jornal e trabalhava na fábrica em algum cargo burocrático.
O Partido era realmente uma parte muito pequena das nossas vidas e mal discutíamos política, até que aconteceu. Nosso país, súbito, era uma ditadura. Infelizmente, um governo repressor, muito diferente do que o Partido esperava. Eles se sentiam traídos pelo Governo que eles escolheram e ajudaram a colocar no poder, e agora lhe dava as costas.
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Jamais impedi meu marido de participar de suas “coisas políticas”. Nunca entendi nem me interessei. Meus pais sempre me deram o conforto que precisei e, depois de algum trabalho, consegui o sustento que precisava para me manter como adulta. A política era algo distante.
Mas nunca foi para Cássio. Eu não poderia culpá-lo ou esperar que ele parasse com isso. Os tempos agora eram mais difíceis e onde mais se precisava de partidos de oposição.
A ditadura não agradou ninguém e mesmo assim as manifestações eram poucas, altamente reprimidas e extremamente perigosas. Cássio era um poço de coragem e orgulho e cada vez que falava do Partido e suas causas, seus olhos brilhavam e seu espírito inflamava como se fosse sua própria vida. Eu tinha certeza que o mataria se o mantivesse comigo e que ele poderia morrer se fosse para as ruas; mas eu nunca poderia ser a responsável pela morte do homem que amava.
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[parte 01 de 05 - próxima]