Os ganhos eram bons, o lugar era bacana e lá foi ela, ganhar a vida na cidade grande.
No primeiro dia de trabalho, fecharam uma sex-shop irregular bem em frente onde ficava. Ela olhou para dentro do quartinho escuro, atrás do balcão onde se encostou o dia todo, e notou um pôster pornô.
- Policial! – ele a olhou da esquina. Ela o chamou com a mão. Ele fez que não com a cabeça, deixando claro que não sairia dalí.
Outro policial chegou e ela explicou que não poderia sair do lugar. Mas que tinha um pôster lá dentro. Ela achava suspeito.
Eles riram, com desdém. Do tipo “É, é, menina. Tem mesmo.”. E não fizeram nada.
Ela dormia em um alojamento. Enquanto tomava um banho quase gelado, a água foi cortada. Sua parte já tinha acabado.
Se deitou em uma cama de casal com uma amiga. A amiga, vendo o nervosismo de primeiro dia, tentou acalmá-la contando histórias engraçadas. Ela abafava o riso, porque outros homens dormiam no mesmo galpão e poderiam acordar.
No dia seguinte, seu cachorro fugiu. Ela saiu do alojamento em sua procura, mas não demorou muito para que a polícia a cercasse.
Foi então que ela entendeu tudo. Ela pertencia ao alojamento. Ela tinha um dono. O emprego, na verdade, era para ser prostituta. Ela estava presa por correntes invisíveis de escravidão e não tinha escolha.
Começou a chorar, desconsolada, arrastada de volta ao alojamento. Encontrou sua irmã e contava, incrédula, o que tinha se tornado, e a irmã respondia que a vida era assim mesmo, que ela precisava ser forte e paciente, que ela ia conseguir. Ao contar pro pai, a mesma coisa: é assim que o mundo funciona.
Mas ela não queria aceitar. Não queria acreditar que ser prostituta era a única coisa que podia ser na vida. Chorava muito, e se drogava para aguentar o choro, para pegar no sono, para não se matar.
Pensava no namorado, mas não conseguia falar com ele. Não queria traí-lo. Queria só sair dalí. Da prisão. Daquilo.
Acordei. E fui pro meu primeiro dia no trabalho novo.
