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Não consigo (mais?) ser boa como em Nárnia.

by Marta Preuss on setembro 2nd, 2009

Eu pensei nos últimos acontecimentos e meu coração se apertou em tristeza.

Apesar de ter sido minha mão que os feriu – eu via assim – me sentia impotente.

Fiz uma criança de onze (talvez agora doze) anos chorar. E ela me fez chorar e me mostrou toda sua maturidade. Ela me achava uma pessoa boa. Mas eu não me sentia boa, por não conseguir engolir tanto orgulho, por não conseguir ser tão forte a ponto de encarar de frente esse fantasma do meu passado.

Isso me machucaria.

Mas fazer a criança chorar também me machucou.

Fiz um velho sofrer. Ele já teve um derrame, e agora está com câncer numa próstata que nem sequer existe mais. Eu não o conheço tão bem quanto deveria. Ele conhece meus desenhos da época que eu ainda não sabia escrever. Eu sempre gostei mais dele do que das outras pessoas daquela casa. Mas não tenho coragem de voltar lá.

Não sei se o fiz chorar. Mas não quero visitar uma pessoa com câncer. Não quero vê-lo, isso me machucaria.

Mas ouvir notícias que ele sente minha falta também me machucou.

Fiz um amigo sofrer. Fi-lo escolher entre eu e a pessoa que ele ama. Tal pessoa lhe faz mal e que me tortura por isso, sem saber. Disse a ele que não gostava dela e não sei o tamanho da ferida que isso lhe causou. Nunca resolvi as coisas com ela, mas não poderia, isso me machucaria – talvez fisicamente.

Mas não ver meu amigo há tanto tempo por causa desse orgulho (e desse medo de apanhar) também me machuca.

“Só ameace uma pessoa mais forte que você”, li em Nárnia.

Eu odeio uma pessoa porque ela me causa inveja. No começo, tínhamos coisas em comum que eu talvez tenha gostado – e então ela pensou que eu fosse sua amiga. Mas eu achei que, como pirraça, ela me contou coisas que eu não queria saber. Como quem não sabe que pudim de leite é meu doce favorito e me conta que comeu todo o pudim de leite que podia na festa passada. E como se lambuzou com a calda. E como era fofinho e maravilhoso. E outros detalhes.

Ela me machucou e eu chorei, mas ela não sabe disso. Não sei como me sentiria se ela soubesse, mas odiar pessoas, no geral, me machuca.

Uma pessoa me amou e eu tive medo desse amor. Tanto medo, tanto pavor, me fez afastar e fugir. Sim, eu, covardemente, fugi. Não me arrependo, porém: a fuga me levou para um caminho que eu gostei mais. Mas existiram feridas. Existiu covardia. E hoje, ao se tocar nesse assunto, ainda tenho medo de abrir esses machucados.

Mas tenho certeza que não posso quero mudar os caminhos agora.

O mesmo vale para aquele que eu acho que gosta de mim. Sonhei, essa noite, que eu estava em seus braços, entretanto negava beijar seus lábios, sabendo com quem queria ficar. Então por que aproveitar seu abraço cálido, sabendo que o estava ferindo? Nosso ego se infla ao saber que alguém gosta da gente, quando nós mesmos não temos amor próprio e confiança suficientes para suprir isso, para que esse orgulho e essa massagem no ego não seja importante.

Eu sei o que quero. Desse caminho não me arrependo, nem quero trocar. Mas pequenas ações, que para mim nada significam, mas que para outro têm conotação de esperança, podem ser evitadas.

Acho que bondade tem mais a ver com coragem e humildade do que qualquer outra coisa.

Esse post é um grande pedido de desculpas sobre todas as coisas erradas que fiz esses últimos tempos. E um busca-coragem. Eu ainda lembro daquele sentimento infantil de não entender porque os adultos são maus e fazem coisas sem lógica, mas também sei que estou chegando à “adultice” e dá medo perder essa bondade infantil, que tantas vezes me foi elogiada, há poucos anos atrás.

A sua bondade ainda está aí?

5 Comments
  1. Marta… que lindo este reconhecimento.
    Olha todos nós erramos o tempo todo. E precisamos a aprender a parar e começar de novo… se necessário, parar e recomeçar sempre!!!!!

    bjos

  2. eu não acho que vc tem que ser boa o tempo inteiro. Really… se machucar em prol dos outros só te traz ferida e dor e no final, guess what, ninguém reconhece. Ainda tem gente que fala ‘fez assim pq quis’. A gente as vezes tem que aprender a ser egoista…

  3. Nossa, que desabafo…
    Aposto que você queria que as pessoas mencionadas leiam esse post né…talvez elas nunca saibam… fiquei triste agora, porque acho que se eu fosse fazer um post desse, teria muito mais parágrafos…

    • Pelo menos duas das pessoas para quem eu escrevi, sei que leram.
      De fato, algumas das outras talvez nunca saibam… Eu poderia até contar, mas isso seria penoso demais. Talvez desnecessário.
      Esse tipo de coisa merece mais do que cartas e pedidos de perdão. Merecem ações. Ações que sou incapaz de oferecer no momento. Então fica no gelo mais um pouco…

Trackbacks & Pingbacks

  1. Porque 3 meses são importantes, porra. | Compulsive

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