Skip to content

Somos tão jovens

by Marta Preuss on agosto 18th, 2009

Tenho certeza que o mercado de trabalho brasileiro não é muito confortável para a maioria de nós (apostando que uma pequena parcela – se existir – dos meus leitores é político ou pastor), mas é inegável que eu convivo com as profissões mais fodidas-e-mal-pagas que eu tenho notícia: minha irmã é vendedora de loja de roupas, meus amigos são programadores e a outra parte, eu inclusa, trabalha em agência de publicidade.

Quanto à loja de roupa, não tem muito o que falar: comércio é um saco – e a única loja que trabalhei viu as minhas poucas habilidades vendedoras somente por um mês. Foi péssimo pra mim, não dou pra isso, mas a Laís tá indo bem. O pessoal tem de trabalhar de fim-de-semana, em horários estranhos, mas no fim das contas, eles recebem direitinho pelo que trabalham (espero).

Eu acho que não conheço um programador não-nerd, então ficar na frente do computador pesquisando é normal. Mesmo assim, aqui já começam a acontecer umas coisas que me irritam profundamente: amigos que passam semanas viajando a trabalho, trabalhando 20h por dia (sim, você leu certo), e os que, não raro, surtam em pontos extremos de stress. Aliás, acho que é nessa parte do stress que o bicho pega: meu pai, ex programador de Visual Basic, se aposentou 10 anos antes do tempo, com o programa de aposentadoria voluntária do Banco do Brasil, e demorou cinco anos pra programar de novo.

“Só agora, quando eu abro o programa, não lembro mais da atmosfera de trabalhar no banco. Agora dá pra voltar a brincar”

Ele disse uma vez pra mim e começou a estudar Java (depois largou, mas “A vida e obra do meu pai fodão” é um outro post que ainda não existe). Enfim, meus três amigos mais próximos programadores andam surtando e fazendo faculdade. Ao mesmo tempo.

Mas eu sempre trabalhei em agência, três pequenas e duas grandes. O engraçado é que na maior delas é que o trabalho foi mais desumano. Desumano, sim. Não vem torcendo o nariz, falando “imagina, Marta, você está exagerando”. Eu estaria, se não rolasse esse orgulho:

“É tenso qdo você olha o histórico de alguns projetos e vê atividades disparadas às 03 da manhã.. Tenso, porém, sensação de dever cumprido o/”

Você acha isso bonito? Deixa eu te contar uma novidade: você não recebeu hora extra. Ah, o trabalho engrandece o homem? Ah, sua carreira está melhorando? Puxa, parabéns. Por outro lado, lamento, eu acho você bastante bobo para aceitar que façam isso com você.

Quando um ser humano se revoltou contra o entra as oito, sai as oito e recebe oito horas/dia de salário, ficou tão manchado que saiu da agência. E certo estava ele. Não entendo esse orgulho de “virei a noite!”, “tô há 32 horas trabalhando!”, “quase morri mas entreguei!” se você não vai realmente receber por isso – seja dinheiro ou portfólio, numa exceção (mas eu sei que no caso é recorrente, é quase diário).

Já ouvi que a gringa compara agências do Brasil com China e Índia. Que os orientais me perdoem, mas nosso objetivo não é montar. Nosso objetivo é criar, e nós temos capacidade para isso. Só que nossos chefes continuam nos tratando como se fôssemos macaquinhos que produzem e tudo bem não ver a família. Precisa entregar o job. Você não vai me deixar na mão, certo?

(Daí eu cansei e mudei de agência. Hoje eu tenho vida, dois blogs (mais um em criação), namorado e podcast. Fiz curso, saio de fim de semana e ganho menos.)

Quando eu falei que ia trocar de emprego, ou sempre que eu reclamo disso, minha mãe tem uma fita gravada e dá play: “Mas emprego hoje em dia está tão difícil, Marta… Tem que aguentar, emprego é chato mesmo. É assim mesmo, não tem jeito”. Ok, tem que trabalhar? Tem. Tem dia que é chato? Claro. Mas eu não vou perder vida porque “é assim mesmo”. Se for assim mesmo, eu largo tudo e vivo de freela. Problema resolvido, com louvor.

Somos tão jovens e a maioria de nós tem gastrite. A maioria de nós usa óculos. A maioria de nós tem algum tipo de LER ou já sofreu dores por isso. E nenhum de nós passou dos 30. Pense nisso.

15 Comments
  1. Meu LER é tomar-café-ter-gastrite, hahahaha!

    Verdade, somos quase-escravos. Mas isso é reflexo do nosso mercado de trabalho, que não procura trabalhadores motivados e com criatividade, mas sim trabalhadores desesperados por um selário que se sujeitam à quase qualquer coisa por ele. Eu já parei com isso. Deu meu horário, vazei. Preciso começar a fazer só o meu trabalho agora, que é um teco mais difícil. E RUMO À 2012foldr (Que já teve n nomes)

  2. Concordo com você Marta. Esse “orgulho” de “ah, virei a noite trabalhando pra entregar…”, isso não é merito nenhum, é burrice! Mesmo ganhando hora extra para isso. Afinal, todo dinheiro ganho em hora extra, será (ou já foi) gasto com café, red bull, energéticos entre outras coisas pra te manter acordado, ligado, concentrado e atento a tudo, fora os 25% de impostos para o governo e os gastos com remédios para gastrite.

    Viva a vida!!!!

  3. è tão tão triste ler isso e pensar ‘pqp eu trocava o balcão por trabalhar 12hrs por dia recebendo 8′. Pelo menos dava um tiquinho de valor aos 5 anos gastos na facul =/

  4. Se eu tiver que trabalhar de fds, ou por mais de 8h por dia, que seja por mim, e não pra me usarem como peça numa engrenagem monstro de ganhar dinheiro. Dinheiro esse, por sinal, que nunca volta pros funcionários do jeito correto.

    Saúde em primeiro lugar.

    Como está escrito na lápide de Jenny Sparks (uma personagem dos quadrinhos), numa HQ recente que eu li: “QUE SE DANE, EU QUERO UM MUNDO MELHOR!”

    Vc sabe que eu concordo 100% com seu texto. Já conversamos sobre isso muitas vezes ao vivo. :)

  5. Falou e disse.
    Passo por tudo que você disse ai em cima.
    Só rindo para não chorar.

  6. Trancon permalink

    Na minha opinião, tudo depende do bom senso. Vale lembrar que se a empresa não produz, ela não fatura. Se não fatura, salário no fim do mês não aparece. Simples assim.

    O problema em questão, pelo que entendi, é a exploração. Tornar a “hora extra” um hábito, por horas intermináveis. Aí não dá mesmo.
    Sinceramente, não vejo problema algum ficar uma ou outra vez uma horinha a mais pra resolver algo, mesmo sem receber por isso. É o que falta pra muita gente, o comprometimento com a empresa. Conheço muita gente que diz “ah, deu meu horário eu to indo, eles não me pagam a mais mesmo” e simplesmente somem, acumulando trabalho e problemas pro dia seguinte.

    O fato é que, no geral, brasileiro é preguiçoso, folgado e metido a malandro. Prefere pular 4 dias de carnaval sem parar, do que fazer 1 hora extra duas ou tres vezes na semana, pq “fica cansado, com stress”. Aí chega o fim do mes e ele se vê “obrigado” a aceitar qualquer “imposição” pra ganhar um troquinho extra pra garantir o kinder ovo das crianças.

    Como disse la no começo do meu texto, é tudo questão bom senso e de diálogo.

    • Concordo plenamente, tanto que, hoje em dia, se precisa eu fico e perco fim-de-semana, porque as coisas fluem melhor e o resultado compensa. O problema é o hábito e a exploração mesmo.

  7. Por esses motivos, hoje é meu penultimo dia na agencia. Em um ano, já tenho que usar óculos, feridas de strees (não sabia nem que existia essa parada), não sobrou dinheiro pra uma unica cerveja e café não faz mas efeito

  8. Airo permalink

    Enxaqueca, tendinite e tensão constante no ombro. Sim sim, eu também trabalho em agência. (E até semana passada, em duas simultaneamente)

  9. De que adianta vestir camisa se ela é emprestada?

Trackbacks & Pingbacks

  1. A semana da ironia cruel | Compulsive
  2. Vale mais do que dinheiro | Compulsive

Leave a Reply

Note: XHTML is allowed. Your email address will never be published.

Subscribe to this comment feed via RSS