A história é escrita pelos heróis
Meus pais voltaram de viagem semana passada e, além de eu estar com saudade, eles estavam de bom humor, então batemos muito papo. Dia desses estava passando no rádio um flashback da Jovem Guarda, então começamos a comparar o tempo deles com o meu.
Pra você visualizar melhor: meus pais tinham uns 30 e poucos anos quando nasci, então é uma diferença maior. E eles moravam pros lados de Diadema na época que Diadema ainda era São Bernardo, então era uma vida meio de interior. De criar galinha no quintal e brincar na rua de terra o dia todo.
A conversa, como qualquer boa conversa de almoço de domingo, foi desordenada e pipocante como uma nuvem de tags. Mas falamos basicamente de música, comportamento, educação e política.
Acho que puxei o assunto da política porque o locutor disse que os músicos torciam o nariz para a Jovem Guarda porque sua temática romântica afastava o foco político que a música estava desempenhando – arma importante naqueles tempos de repressão cultural. Hoje em dia é o contrário: galera torce o nariz para qualquer coisa que fale de política. Tirando CQC, política não vende.
Minha mãe sabia várias (pra não dizer todas) as músicas de cor. Compararam eles mesmos aos 16, 17 anos com crianças de 12 de hoje. E meu pai mencionou que as crianças brasileiras de 10 anos hoje são comparadas com crianças europeias de 4 anos (pasmem. E não duvido.). Do jeito que foram criados, eram seres sem opinião relevante ou direitos até os 17. Aos 18, “trocavam a chavinha” e “viravam” adultos, eu imagino, totalmente perdidos.
Ah! E pra marcar programas? Eu fiquei me perguntando como eles viviam sem celular. “A gente marcava antes, ué. A USP tinha prédios coloridos, então no dia anterior a gente combinava no prédio verde, as nove horas. Claro que tinha interferência, a gente desencontrava, mas no geral até que dava certo”, a mãe explicou e meu pai continuou: “Começávamos a marcar o fim de semana na terça-feira. Ligávamos para alguns – a qualidade era horrível – pedíamos para deixar recado, as pessoas mais difíceis a gente comunicava primeiro.” Bizarro. Hoje começo a marcar coisas na quarta-feira, mas é porque tem tanta coisa pra fazer que quem chamar primeiro, leva. E combinar direitinho é sábado seis horas da tarde, celular pra todo lado, hahahaha!
Eu mencionei que, uma das coisas que eu invejo da época deles (além de brincar na rua, ralar o joelho, empinar pipa e descer de rolimã, é claro, além da comida da minha avó) era que eles eram mais ligados em política. “Não, não, eram só os estudantes. A gente era assim, que nem vocês: se estamos vivendo, se tem emprego, tá bom. Todo mundo muito ocupado com trabalho e escola. Eles que iam lá e lutavam. Que nem hoje. A maior parte das pessoas não sabe uma série de coisas importantes que têm acontecido. E tudo bem. Só vai mudar quando sairmos desse ciclo. Sempre o pai transfere suas neuroses para os filhos e assim por diante. Quando uma geração inteira quebrar as neuroses, aí teremos um mundo melhor”, meu pai disse.
Pena. A gente super acha que “nossa como deve ter sido difícil viver na repressão, onde nada podia ser criado, mas tudo bem, os estudantes pintaram as caras e lutaram pela nossa liberdade”, mas antigamente não tinha internet, tinha só revista de comportamento. Ah, o comportamento! Minha mãe disse que a palavra de lei era “O que a vizinha vai pensar?!”. Não ia dar certo eu viver naquela época. “Por isso você nasceu nessa, Marta”, e faz sentido, mãe.
No fim das contas, pode ser que seja tudo cíclico e, adicionando uns gadgets e tirando a terra batida, ainda estejamos vivendo a época dos nossos pais, mascarada e um pouquinho melhor. E vamos melhorando, assim, de pouquinho em pouquinho. Foi assim que chegamos até aqui, né? :)
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10 comentários para "A história é escrita pelos heróis" | Adicione o seu »
Texto extremamente excepcional.
Quando crescer quero ser igual a você!
auheuhae ‘brigada ^_^~
Nunca escondi minha simpatia pelo regime de exceção, vulgo, “ditadura”. Bons tempos… bons tempos………
Não sei bem dizer se foi bom, porque essa coisa de “o que os olhos não vêem o coração não sente” não é muito a minha cara.
Ai ai…
Estou lendo “As meninas”, da Lygia Fagundes Telles… Fala sobre essa época…
E já faz umas semanas que venho pensando… como seria se eu tivesse nascido nesse tempo… (twitter tá de prova! rs)
Como ser o paradoxo que sou hoje: certinha x revolucionária?! Como gostar de Beatles e me engajar politicamente? Como não tomar partido?
Sempre disse que nasci na época errada (como eu gostaria que as pessoas ainda combinassem as coisas com antecedência! hahaha) mas, apesar de tudo isso, eu tenho certeza que minhas amarras não se desatariam com a mesma fluidez que acontece hoje…
Talvez depois de tantos: Eu sou isso, eu sou aquilo… Sou engajado, você alienado! Hoje, eu possa ser um pouco de tudo na medida certa…
Obrigada pelos posts… reflexões suas que têm sido exatamente o que tenho pensado rsrs acho que sem querer estamos retomando a sintonia de anos atrás hahaha
Dizem que tudo tem um porquê… Talvez… Quem sabe..?
Saudades…
Bjinhos
Eu que fico feliz com seus comentários por aqui, apesar da minha ausência no MSN (vida corrida, curso, enfim).
Eu acho que meu comentário vai ser um ctrl v: “Hoje, eu possa ser um pouco de tudo na medida certa…”, todos nós.
:)
Oi Marta!
Primeiro, obrigada pelos “toques” que você deu nos meus blogs, através do Marco, vou utilizá-los com sabedoria!! rs
E olha, parabéns, adorei a “A história é contada pelos heróis”. Você escreve incrivelmente bem, posso até visualizar a conversa de vocês!! rs
Meus parabéns!!
Um beijo!
Opa! Obrigada!
E sucesso com os blogs :D
[...] passado e os dias atuais. Será que na época dos nossos pais era realmente tão bom assim? Veja em A História é escrita pelos heróis e participe nos [...]
O mais triste é que eles viveram numa época muito mais intensa que a nossa, onde as pessoas faziam acontecer ao vivo e a cores, e não sentadinhas atrás de uma tela com tudo de mão beijada a um clique de distancia, e MESMO ASSIM, (pelo menos eu) tenho pais que foram totalmente alheios a tudo.
É como viver sem existir.