— Meu Deus, o que… o que eu tô fazendo?
Era tarde da noite, umas 3 da manhã e Maísa sentia frio, muito frio. Ela tremia a ponto de não conseguir segurar direito o décimo quinto cigarro. Meia garrafa de vodka jazia ao lado do sofá. Papéis espalhados por todos os lados. Copos e cinzeiros se misturavam à bagunça, tentando passar por inocentes e despercebidos, mas se sentindo culpados por tudo.
Maísa tremia. Em sua camisola leve, o frio das janelas abertas fazia seus pêlos se eriçarem e o bico de seus seios doer de tão endurecido. O tremor era incontrolável.
Com medo de si mesma e voltando ao mínimo de consciência, foi até a janela e, ao olhar para baixo e notar os dez andares que a levariam para a morte certa e fim incerto de toda aquela agonia, a fechou.
O vento parou de espalhar os papéis e cinzas.
Ainda estava frio, Maísa ainda tremia mas conseguiu parar de soluçar.
Sem forças, sentou no chão e se apoiou no sofá velho e desconfortável, presente de um desconhecido que comprou sofá melhor e abandonou este na rua.
Naquela época não tinha problema. Naquela época, tudo era calma e luz. Um sofá velho descartado ganhava uma cobertura acolchoada nova e estava pronto para receber os amigos.
E o carinho, como não?
Mas Carlos foi embora. Os amigos foram embora, um por um. Os trabalhos, mudando, todos eles tão iguais. Sem pais para correr ao encontro. Sem irmãos conhecidos. O nada. O ninguém. E aquela tristeza sem fim.
* * *
Barulho.
Mais barulho, “mas que porra é essa? Argh, minha cabeça…”.
— Bom dia, dona Maísa, a senhora tá boa? É que a dona Santina alí do 903 ouviu uns barulho de coisa quebrando e ficou preocupada com a senhora, e aí a senhora não foi trabalhar hoje aí…
Maísa conseguiu sorrir à gentileza.
— Obrigada, Jorge. Diz pra dona Santina que eu derrubei uns pratos e estou meio gripada, mas vou ficar bem.
O porteiro fez um cumprimento com a cabeça e deixou Maísa sozinha mais uma vez.
Ela se virou e tentou ignorar a bagunça. Passou direto por tudo e colocou água no fogo para preparar o elixir do dia seguinte: café quentinho.
A mente ainda não trabalhava bem, mas o extinto de sobrevivência piscava uma luz vermelha com uma sirene alta que só piorava a enxaqueca. “Acho que ontem… eu pensei em… em me matar…”.
Maísa, aos quase 30, não entendia muito bem da vida, mas sabia que querer tirá-la contra a vontade de Deus não era certo. Nem saudável.
Tomou o café, tomou um banho, mais café. Catou algumas coisas aqui e ali. Foi à farmácia e pediu um calmante. Voltou, ligou pro trabalho e avisou da falsa gripe. “Essa é a segunda vez esse mês, Maísa. Você precisa de umas vitaminas C…”.
“Preciso mais dos calmantes”, ela pensou. Tomou dois, arrumou a cama e dormiu.
* * *
Em algum lugar, distante dali, pessoas muito diferentes de Maísa comemoravam sua depressão sem saber seu nome. “As vendas aumentaram esse mês!” e champagne e bônus. A indústria farmaceutica prosperava às custas de Maísa e outros milhares.
Trata-se os sintomas e não as causas. Analgésico para a dor, pomada para alergia, calmante para depressão. Com a causa, o sintoma persiste e as vendas crescem.
* * *
Anos depois, Maísa descobriu mais sobre si. Depois de tanto ocultar sintomas, se deixou descobrir e achou uma artesã. A criatividade não paga contas. A felicidade não é sustentável. A arte só é respeitada se vende. Maísa começou a achar que o errado era o mundo, não ela. “Não posso salvar o mundo”, ela pensava, “mas pelo menos posso ser resistente a ele”.
O tempo passa e cura. Maísa melhorou devagar. Ela se sentia melhor, pelo menos. O que seria bom? Amigos, um companheiro, um trabalho onde lhe pagassem para ser artesã? Nada disso aconteceu. Os empregos continuavam iguais e ela continuava pulando de um para outro, ganhando o mínimo para sua sobrevivência. Mas, em segredo, pelo menos vivia.
Melhor que muita gente por aí.