[primeira - parte 04 de 05 - próxima]
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Cássio não estava mais lá quando acordei. Suspirei, sentindo sua falta. Bateram à minha porta antes que eu pudesse refletir sobre a solidão e o medo.
Abri só o que a corrente permitiu e alguém apontou uma arma para mim.
Prometi que ia fechar a porta novamente só para tirar a corrente e a pessoa entrar.
Fechei a porta e corri.
O alçapão estava escondido no closet – uma pequena medida de segurança que resolvemos implementar e era bem fácil no primeiro andar do prédio. Escorreguei para dentro e andei sorrateiramente pelos corredores. Ninguém veio atrás de mim.
Saí atrás do prédio e corri para o posto mais próximo do Partido.
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Me acolheram mas não sabiam nada de Cássio. Tampouco eu poderia dizer se quem estava atrás de mim era o Terceiro Comando ou o Governo. Na dúvida, fiquei ali. Não poderia voltar.
O posto era uma galeria subterrânea, próxima a uma estação abandonada de metrô. Barracas se erguiam e cada um era responsável por alguma tarefa. Os que podiam iam para fora conseguir comida, roupas, utensílios. Nós, refugiados, trabalhávamos lavando roupas, cozinhando, limpando.
Notei que o melhor era me adaptar o mais rápido possível.
Os dias passaram. Um dia, lavando o chão, me senti tonta. Tudo ficou escuro. Acordei na cama do hospital de campanha.
Vomitei. Muito. Me sentia fraca e tonta.
Trouxeram um teste de gravidez… e deu positivo.
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Luzia ou Lúcio. Não pude fazer pré-natal nem qualquer acompanhamento médico e não sabia se estava esperando um menino ou uma menina, mas seu nome se remeteria a luz.
A gravidez foi difícil. Eu sentia enjôos, dores, cansaço. Não conseguia fazer nada. Chorava de medo, de solidão, de carência. Ficava isolada a maior parte do tempo. Cássio não aparecia, não voltava. Não tínhamos muitas notícias do mundo lá fora. Comecei a pensar que poderia estar morto.
Finalmente, o dia chegou. Doeu demais. Algumas mulheres me ajudaram. Luzia veio ao mundo e eu desmaiei.
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Acordei com o choro de uma criança. Ela estava viva. Ela precisava de mim. Forcei-me a sentar, apesar das dores, do cansaço, da cabeça rodando.
Entregaram Luzia nos meus braços.
Ela abriu os olhos.
Não havia nada ali, apenas uma bola branca.
Não sabemos porque Luzia nasceu cega. Apostamos nas precárias condições do acampamento, das coisas que passei antes, dos meus genes não muito bons ou uma simples má-formação.
Mas eu sabia que ela era muito mais que um par de olhos. Que isso nunca faria minha centelha de luz parar de brilhar. Ela era linda. Era minha vida. Era tudo onde poderia me segurar.
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