Tortura – parte 03

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Ao ver o homem que amava ali, ao meu lado, todos os meus sentidos voltaram. Queria gritar, abraçá-lo, mas só consegui chorar, emocionada. Ele estava vivo.

Me torturaram na frente dele, com choques, tapas. Ele gritava. Implorava para me largarem. Confirmou que eu não sabia de nada. Nunca tinha visto o Cássio assim. A dor doía mais. Tentei ser forte e não consegui. Gritava. Chorava. Queria morrer.

Apontaram uma arma para minha cabeça e eu esperei meu pedido se realizar. Meu marido estava vivo. Eu havia o visto mais uma vez antes de morrer. Poderia acabar ali. Seria um alívio, uma recompensa por existir. Eu não tinha nada a ver com aquela luta, só queria que tudo acabasse.

Cássio entrou em desespero. Li seus lábios dizendo que ele me amava. Consegui esboçar um sorriso com meu rosto sujo, magro e machucado. Chorei. Fechei os olhos.

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Ouvi um tiro.

Senti a arma saindo de perto da minha cabeça e a ouvi caindo do meu lado.

Abri os olhos para ver Cássio sendo desamarrado e vários integrantes do Partido rendendo os integrantes do Terceiro Comando.

Estávamos salvos.

Desmaiei, exausta.

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Acordei em um hospital de campanha. Não poderíamos usar os hospitais públicos porque éramos foragidos – e sim, agora eu fazia parte daquilo tudo. Não tinha mais volta. Meu corpo levaria para sempre todas as marcas daqueles dias. A marca de uma luta que me forçaram a participar e me lembrava que eu não tinha mais escolha.

Eu e meus colegas de cela nos recuperamos devagar, comendo melhor, tomando banhos diários, nos recuperando das infecções, sangramentos, feridas.

Cássio também precisou se recuperar, mas foi mais rápido que eu e logo estava de volta às atividades. Entendi que ele era algum tipo de comandante: dando ordens, organizando grupos, sumindo por horas de reuniões.

Apesar de estar ali e fazer parte de um grupo, ainda não sabia nada dos planos. Humildemente, me juntei aos que não tiveram escolha e, quando me recuperei, comecei a ajudar no acampamento. Não havia mais nada a fazer.

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Nem acreditei quando, um ano depois, conseguimos um apartamento. Cássio achava melhor que nos misturássemos às pessoas normais. Nos mudamos para uma cidade do interior, mas mesmo as cidades do interior já estavam industrializadas e superpovoadas aqueles dias.

Nem o Governo, nem o Terceiro Comando nos procuraram. As coisas estavam mais calmas.

Até que o Partido começou a se organizar para outra manifestação. E meu coração se apertou novamente em um nó de pavor.
Na noite antes à viagem de Cássio, fizemos amor como não fazíamos há muito tempo. Nos enrolamos a noite toda, trocando palavras carinhosas e eu sentia todo aquele amor dentro de mim, nas minhas veias, no nosso suor.

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