[primeira - parte 02 de 05 - próxima]
O Partido organizou a manifestação secretamente por semanas. Pensaram em (quase) tudo: rotas de fuga, armas brancas, cartazes, palavras, repercussão na mídia, formas de conseguir recrutas. O dia estava próximo e eu não sabia de nenhum plano, não sabia de nada do Partido: Cássio achava que me protegia assim. Eu sabia que ele protegia mais o Partido, mas não me importava.
Uma noite antes, dormimos juntos pelo que foi a última vez em muitos, muitos meses. Abracei-o forte a noite toda, grudada em seu peito, com medo. Ele tentava me acalmar, passando a mão nos meus cabelos cumpridos, no meu rosto suave, dizendo palavras animadoras, palavras da luta, que o que estava fazendo era muito maior do que poderíamos viver ali.
Eu entendia, juro. Só tinha medo. Medo que o matassem ou torturassem. Quem ama, sabe.
Não notei a hora que peguei no sono, mas quando acordei Cássio já não estava mais lá. Chorei por horas, apavorada. Me recompus e resolvi ir trabalhar, já que não havia mais nada a ser feito a respeito.
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Antes de por os sapatos, alguém bateu à porta. Olhei pelo olho mágico e não reconheci, mas como não abrir a porta para alguém armado?
Eram três. Entraram empurrando, me bateram no rosto, começaram a revirar a casa em busca de Cássio e sabe-se-lá o que mais. Provas, talvez. Planos. Papéis. Reviraram tudo. Vi nosso lar na mão de três brutamontes, me senti revirada por dentro. Um deles me segurou e amarrou forte. Jogou um saco na minha cabeça, me ergueu, me levou para fora e me jogou em um carro.
Gritavam perguntando sobre Cássio e eu não sabia responder nada. Me bateram até não doer mais. Eu chorava, arquejava e jurava que não sabia nada, mas não havia nada que pudesse fazer: tinha sido sequestrada pelo Terceiro Comando.
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Só soube da existência deles com esse sequestro, mas receio que Cássio já soubesse há muito tempo e procurou me poupar. Nesse dia eu soube das três forças do poder: o Governo autoritário, o Partido Liberal de Cássio e o Terceiro Comando, que queria a volta das coisas como elas eram: uma democracia mentirosa e corrupta.
O Terceiro Comando não era lá muito gentil com seus “hóspedes”. A primeira coisa que me lembro é estar amarrada em uma cadeira, em um quarto escuro, apenas uma lâmpada sobre mim. Arrancaram meu piercing da boca com um puxão, um berro meu e uma dor absurda e sufocante – mas que não era nada comparado ao que eu ia sofrer.
Fiquei em uma cela nojenta, malcheirosa, onde dormíamos pouco e fazíamos nossas refeições perto de onde fazíamos nossas necessidades. Me torturavam todos os dias em busca de informações sobre o Partido e eu não sabia de nada.
Foram dias, semanas. Perdi as contas mas lembro dos choques, do porrete, da caixa d’água onde mergulhavam minha cabeça até desmaiar e depois me acordavam e sufocavam de novo. Me quebraram alguns dedos. Todos os dias eu esperava que me matassem de vez.
Um dia, me amarraram na cadeira novamente. Esperei e me entreguei para mais uma sessão de choques, mas eles não começaram. Na cadeira do meu lado, Cássio arfava, com raiva e dor.
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