Quando a criança nasceu, o médico não soube dizer se era menino ou menina.
Em todas as sonografias, sempre a mesma notícia que deixava os pais na curiosidade: não era possível ver o sexo do bebê.
Era uma criança linda. Nasceu com olhos de um azul profundo e sobrancelhas tão claras que eram quase invisíveis. Era um bebê quieto, não chorava muito, ria de um jeito contagiante quando lhe faziam cócegas ou caretas. Adorava tomar banho. Ou talvez, adorasse ver sua mãe encharcada de tanta água que ia para fora da banheira.
Conforme os anos passavam, os pais não sabiam exatamente como sua amada criança se desenvolveria. Uma sobra de preocupação nos olhos do pai, vestígios de pena nos olhos da mãe. Aos doze anos, a criança usava sutiã. Aos catorze, sua mãe quis levá-la ao ginecologista.
Arruinada, agora a criança não sabia mais quem era, assim como seus pais nunca souberam se a chamavam de filha ou filho. Agora tudo fazia sentido, agora sabia por que era tão diferente. E os meninos que ela havia gostado conforme conversava com as amigas? E as amigas que diziam que o corpo dela (ou talvez ‘dele’) era bonito?
Resolveu continuar vivendo uma vida feminina. Nunca teria filhos. Nunca menstruaria. Era, na verdade, um homem. Mas nasceu com seios, e tinha medo de cirurgias para retirá-los, gostava de si! Deixou os cabelos crescerem. Seu corpo desenvolveu exatamente como o de uma mulher, exceto por aqueles detalhes inconvenientes que lhe faziam ser homem. Ou suficientemente homem para não ser chamado de mulher.
Isolou-se. Sempre simpática, gentil; mas não se mantinha em grupos de amigos ou grupos de estudo. Não poderiam saber quem ela era. Mas o destino faz seu trabalho e o livre arbítrio de escolher ser mulher excluiu outros possíveis caminhos diferentes.
Um rapaz, um homem completo, de verdade, apaixonou-se por ela.
Conversavam sempre, saíam algumas vezes, ela gostava tanto dele, queria tanto ficar com ele! Em sua mente, um dilema inimaginável. Conversou com seus pais, conversou com seus médicos. Ele havia se declarado, ela já não conseguia mais esconder seu segredo. Contou a ele. E nunca mais o viu.
Mulheres não se interessavam por ela e seus seios maduros. Homens a enojavam quando viam que era não era de todo uma mulher. Num determinado momento, não aguentou: bebeu uma, duas, três garrafas de vinho. Uma lâmina na mão. Cortou os mamilos e a partir dali se dilacerou completamente. Nos pensamentos, sabia que sem aqueles seios seria uma pessoa normal. Tudo que ela (ou ele?) queria era ser normal.
Um vizinho do apartamento onde ela morava sozinha a encontrou tarde demais. A cena era horrível. Havia sangue por todo lado, provavelmente ela morrera pela perda de sangue. Seus pais jamais se perdoaram, pensando ter alguma culpa no destino de sua filha. Das outras pessoas que conhecia, nenhuma se lembraria dela. E, quando se encontrasse com os anjos, não se incomodaria de ser mandada ao inferno desde que fosse classificada como inteiramente homem ou inteiramente mulher. Só queria entender melhor a quem deveria poder amar.
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Na verdade, esse texto é da minha irmã, mas por algum motivo ela achou melhor não colocar no próprio blog, então cedi o espaço :)