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Ah! As coincidências!

by Marta Preuss on fevereiro 5th, 2010

Era o quinto dia de fevereiro, uma sexta-feira, e eu me sentia triste e sozinha. Sozinha porque minha companhia adoeceu e triste pela solidão.

Estava em um trabalho novo há poucos dias e fazia experiências de caminhos para casa. Por isso, mesmo sem companhia me dirigi para a Paulista saindo da estação Pinheiros de trem.

Desci na Cidade Universitária e comecei a procurar um caminho para ir para casa. Quando estamos perdidos a solidão aperta, então comecei a imaginar companhia. Minhas companhias imaginárias costumam me interrogar e assim me conheço melhor.

Não achei caminho para casa, então voltei para a Ponte Orca para ir para a Paulista (afinal, lá é minha segunda casa). Na grande fila, com os fones de ouvido, continuei respondendo as perguntas que meu companheiro imaginário me fazia, bem distraída.

Então alguém me perguntou algo.

Tirei o fone, pedi desculpas e o moço repetiu a pergunta, dizendo:

- Essa é a fila da Ponte Orca?
- É sim.
- Puuuuuuuuutz.
- Hahahah, não se preocupe, é rapidinho.

Fitei-o. Tinha a minha altura, era loiro e tinha olhos verdes. Quantos anos, 25, 28, mais de 30? Estava atrasado.

Conversamos, pois éramos duas pessoas muito simpáticas em uma fila enfadonha.  Falamos sobre como portar uma doze pode salvar seu dia, resolver todos os seus problemas. Escolhi achar que ele estava brincando (eu conheço pessoas que acham mesmo isso) e ri e brinquei junto. Conversamos sobre o naturalismo de músicas como “no samba ela me diz que rala/ no samba eu já vi ela quebrar” e pagodes desses. Falamos um pouco dele.

Ele era divertido. Podia até concordar no fundo, mas sempre procurava um contra-ponto: um pequeno troll engraçado e gentil. Ele curte Hermes & Renato e eu agradeci aos vídeos que vi no You Tube. Eu disse que meia vida minha era na internet e ele teve pena.

Não faço idéia se a parte do “uma amiga minha morreu semana passada, minha mina terminou comigo e perdi meu emprego” era brincadeira ou não. A parte do “e ainda falhei no suicídio” ele garantiu que era.

Era sádico. Não ria das próprias piadas e admitia a isso seu sucesso. No fundo eu sei que adoro uma piada sádica e rio de qualquer par de olhos verdes.

Desceu na Consolação. Perguntou se eu acreditava em Deus também (como se fosse Papai Noel) quando falei em casamento. Com um aperto de mão se despediu: “Prazer, Carlos”.

Acho que nunca mais nos veremos de novo.

Só uma coincidência. Uma folha que cai, uma nota de jornal.

Por quê, pra quê e para onde ele foi são perguntas erradas: inúteis e sem resposta. Assim como por que ele existiu, como um relâmpago, pra que ele foi falar comigo, que diferença isso faz/fez são coisas que não cabe a mim saber.

Mas eu não entendo nem desgosto dessas falhas na matrix: como bolinhos de chuva em forma de animais, acho graça e sigo em frente.

Quem pode saber, não é mesmo?

From → Dia-a-dia

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