Meu mundo e nada mais

fev 06 2010

Quando fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia

Só sobraram restos
E eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha

Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado
À meia noite, à meia luz
Sonhando

Trecho de “Meu mundo e nada mais” do Guilherme Arantes.

Eu sou egoísta a ponto de ter um mundo só meu.

No meu mundo as pessoas são felizes a maior parte do tempo. Elas são boas, não matam, não roubam, não estupram. Não batem em cachorros indefesos. Não guardam mágoa por mais de duas semanas. Todo mundo tem casa com internet, plano de saúde, dinheiro para comida e remédios. Todas as pessoas que querem fazer uma faculdade, fazem. As doenças duram algumas semanas. O metrô nunca falha.

Enfim, meu mundo é muito bonito.

Mas meu mundo não é o planeta Terra.

Nem o mundo real.

E no mundo real tem pessoas que batem em cachorros. Por isso os fêmures do meu cachorro estão ambos deslocados da bacia. Cada operação (precisa fazer nas duas pernas, primeiro em uma, com repouso, e depois a segunda) que consiste em cortar a cabeça do fêmur, custa R$800 e vai ter anestesia geral e ser uma longa operação, seguida de fisioterapia.

No mundo real tem pessoas que sofrem por anos, em silêncio. Que forçam um sorriso – às vezes nem isso. As pessoas do meu mundo são fortes no sentido de conseguir aturar muita coisa, mas elas sofrem muita pouca pressão. As pessoas do mundo real sofrem de formas variadas. Por isso não podem ser julgadas como as pessoas do meu mundo. Por isso as pessoas do mundo real, as mais desesperadas, as mais desesperançadas, eventualmente tentam desistir. Pôr em prática o “pára o mundo que eu quero descer. Ok, você não vai parar? Eu vou descer mesmo assim” e se jogam em qualquer abismo.

Ou tentam.

Enfim, eu tô muito triste e muito preocupada. Então se vocês, do mundo real, me virem amuada por aí, é por isso, não é nada pessoal.

Hoje tem a festa de formatura da Paty, uma grande amiga. Eu vou (se der), apesar de tudo, porque não adianta eu ficar aqui de qualquer forma.

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Ah! As coincidências!

fev 05 2010

Era o quinto dia de fevereiro, uma sexta-feira, e eu me sentia triste e sozinha. Sozinha porque minha companhia adoeceu e triste pela solidão.

Estava em um trabalho novo há poucos dias e fazia experiências de caminhos para casa. Por isso, mesmo sem companhia me dirigi para a Paulista saindo da estação Pinheiros de trem.

Desci na Cidade Universitária e comecei a procurar um caminho para ir para casa. Quando estamos perdidos a solidão aperta, então comecei a imaginar companhia. Minhas companhias imaginárias costumam me interrogar e assim me conheço melhor.

Não achei caminho para casa, então voltei para a Ponte Orca para ir para a Paulista (afinal, lá é minha segunda casa). Na grande fila, com os fones de ouvido, continuei respondendo as perguntas que meu companheiro imaginário me fazia, bem distraída.

Então alguém me perguntou algo.

Tirei o fone, pedi desculpas e o moço repetiu a pergunta, dizendo:

- Essa é a fila da Ponte Orca?
- É sim.
- Puuuuuuuuutz.
- Hahahah, não se preocupe, é rapidinho.

Fitei-o. Tinha a minha altura, era loiro e tinha olhos verdes. Quantos anos, 25, 28, mais de 30? Estava atrasado.

Conversamos, pois éramos duas pessoas muito simpáticas em uma fila enfadonha.  Falamos sobre como portar uma doze pode salvar seu dia, resolver todos os seus problemas. Escolhi achar que ele estava brincando (eu conheço pessoas que acham mesmo isso) e ri e brinquei junto. Conversamos sobre o naturalismo de músicas como “no samba ela me diz que rala/ no samba eu já vi ela quebrar” e pagodes desses. Falamos um pouco dele.

Ele era divertido. Podia até concordar no fundo, mas sempre procurava um contra-ponto: um pequeno troll engraçado e gentil. Ele curte Hermes & Renato e eu agradeci aos vídeos que vi no You Tube. Eu disse que meia vida minha era na internet e ele teve pena.

Não faço idéia se a parte do “uma amiga minha morreu semana passada, minha mina terminou comigo e perdi meu emprego” era brincadeira ou não. A parte do “e ainda falhei no suicídio” ele garantiu que era.

Era sádico. Não ria das próprias piadas e admitia a isso seu sucesso. No fundo eu sei que adoro uma piada sádica e rio de qualquer par de olhos verdes.

Desceu na Consolação. Perguntou se eu acreditava em Deus também (como se fosse Papai Noel) quando falei em casamento. Com um aperto de mão se despediu: “Prazer, Carlos”.

Acho que nunca mais nos veremos de novo.

Só uma coincidência. Uma folha que cai, uma nota de jornal.

Por quê, pra quê e para onde ele foi são perguntas erradas: inúteis e sem resposta. Assim como por que ele existiu, como um relâmpago, pra que ele foi falar comigo, que diferença isso faz/fez são coisas que não cabe a mim saber.

Mas eu não entendo nem desgosto dessas falhas na matrix: como bolinhos de chuva em forma de animais, acho graça e sigo em frente.

Quem pode saber, não é mesmo?

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O Senhor dos Anéis – Lido, sonhado e comentado

fev 05 2010

O hai nerds. Long time no see. Estou de “férias” temporárias, brinks, alocada da Abril e graças a algum tempo livre que tive (não pergunte), pude terminar de ler O Senhor dos Anéis essa semana. (em breve volta a correria dos freelas, então não espere muita agitação por aqui)

Comecei lendo o Silmarillion muitos meses atrás, mas não consegui continuar. Muitos nomes, nenhuma referência a nada real, como Tolkien quer que eu imagine alguma coisa desse jeito? Tipo “Trolls são orcs grandes”. Nossa, bem elucidativo. Thanks.

Achei que estava enferrujada pra algo assim então li coisas mais leves antes: muito Gaiman (com direito a algumas coisas lindas da série de Sandman), o maravilhoso volume único de Nárnia e outras coisinhas largadas. Quando achei que estava pronta, parti direto para o primeiro, A Sociedade do Anel. Claro, algumas explicações ainda ficaram suspensas por falta de ler O Hobbit, mas nada grave e Tolkien faz questão de dar uma explicação prévia.

O livro passou relativamente rápido. Sabe como é o começo. Todo mundo reclama do Tom Bombadil, mas eu gostei dele. Tantas andanças e esperanças. Um livro claro como o dia.

O segundo livro passou tão arrastado, mas tão arrastado que eu encaixei uma Meg Cabbot (Tamanho 42 não é gorda) pra continuar gostando de ler e um Pequeno Príncipe para dar uma emoção na minha vida. Esse livro conta a andança das personagens. É um meio mais chato que o começo, nunca vi. Briguinhas aqui e ali. A parte que mais gostei foram dos Ents (grandes árvores que falam devagar) – e são ents! Eles demoram dez vezes mais que uma pessoa normal só pra dar bom dia. Reflita.

O terceiro eu li em umas duas semanas e me rendeu uns sonhos.

Primeiro sonhei que o @rafasoares era um servidor de Sauron.

Depois sonhei que eu ia destruir o anel verde e na hora que eu destruía e gritava “eu sou a Marta! da Gommo!”, havia a aurora e então o crepúsculo. Então Faramir me ligou para me avisar que seria mal-julgada. Loucuras de quem lê antes de dormir.

Então me emocionei com as últimas páginas e fazendo um balanço geral, é uma ótima história. Muito boa mesmo.

Eu gostei muito do modo como Tolkien cuidou do tempo e rítmo no segundo e terceiro livros, quando haviam várias histórias acontecendo ao mesmo tempo. Não vi os filmes até hoje e estou curiosa para ver como adaptaram isso.

Mas eu preferia ter lido um volume único. Concordo com o Ray, a divisão de títulos e livros é horrível. Digo, que duas torres, meu Deus? Eu contei três torres: as duas de Mordor e a de Sauruman. A divisão dos seis livros que o Tolkien faz é bem melhor que os três volumes.

Por mais que agora eu tenha mais essa estrelinha para colar na minha carteirinha de nerd, ainda vou me confundir toda com os nomes e lugares. São muitos. Mas é uma leitura válida, como não? Tudo que eu penso lembro que podia ser pior. Por exemplo “Nossa andei muito hoje. Mas não tanto quanto Frodo e Sam” ou “Puxa vida, que dor dessa tendinite. Mas a flecha no ombro do Frodo deve ter sido pior”. Hahahahha!

Agora falta O Hobbit. E não sei o que virá depois, mas tô com vontade da série dos livros do Guia do Mochileiro das Galáxias, que eu só vi o filme (shame on me). Outras sugestões são bem vindas e veja no meu perfil d’O Livreiro o que já li.

[editado] Eu fiquei o livro todo procurando QUANDO o Tolkien ia ser machista. Porque ele seria, inevitavelmente, dado sua época. Primeiro: ninguém da comitiva é mulher. Segundo: Quando uma mulher fala “Dá aqui minha espada que eu vou pra guerra” é reprimida. Vai mesmo assim e quebra o braço. Quando se cura, sua felicidade é saber que quer ser da casa de cura. PRA MERDA A CURA, caralho, personagens de cura a) são ruins e b) já tinha o Gandalf E o Aragorn, WTF? “Sou mulher, sou linda, devo ficar aqui como todos os machões falam”. Afê, Tolkien! [/editado]

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A violência travestida faz seu trottoir

jan 30 2010

Em anúncios luminosos, máquinas de barbear
Armas de brinquedo, medo de brincar
A violência travestida faz seu trottoir

Engenheiros do Hawaii em A violência travestida faz seu trottoir, do album O Papa é Pop, 1990.

Eu refleti bastante sobre o que essa frase quer dizer: “A violência travestida faz seu trottoir”. Primeiro, trottoir é um tipo de calçada. Depois, a violência é travestida, disfarçada.

Uma violência disfarçada é a nossa base de passagem, onde andamos sobre todos os dias sem notar. Nosso caminho. Uma violência camuflada que guia nossas atitudes, nos levando a algum lugar sem que a gente note.

O que lhe faz pensar onde a violência se traveste. Eu fico pensando, meu Deus!, onde a violência nasce? Da onde ela brota? Por que ela existe?

A pobreza justifica? Sinceramente, seria ofender o pobre. Eu sou da tão odiada classe média, mas quando foi que a classe pobre não teve princípios? Bobagem, classificar assim seria preconceituoso.

Com tanta religião, com tanta conscientização, educação, cultura, evolução pessoal, avisos pela tv, pela internet, pela mídia. Onde se traveste essa violência, meu Deus?

Uma pessoa pulou meu portão (não é tão difícil fisicamente, mas alguém invadiu a casa de outra pessoa, uma pessoa que ela não conhece, que não faz diferença para ela.). Meu cachorro começou a latir. A pessoa viu que tinha outro portão, trancado a cadeado. Cachorro latindo. A pessoa achou que seria uma boa idéia chutar o cachorro nas patas de trás. O cachorro chorou. A pessoa fugiu.

Esse é o Snoopy. Ele tem um ano e sete meses e já nasceu com as patas traseiras com problemas. Ele foi chutado por defender a minha casa. Gratuitamente.

E todo dia eu duvido mais da lei da troca equivalente: meu cachorro nunca mordeu ninguém. Ele é super bonzinho. Só latiu pra defender a casa e não mordeu a pessoa. Por que sofrer tanto, a ponto da injeção no músculo nem fazer cócegas perto da dor que ele já estava sentindo?

Parte irônica: o guardinha do apito passar na minha rua vinte minutos depois. Útil? NOT.

Complementar: post da Laís (minha irmã) sobre o mesmo assunto.

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NSFW – Sexualidade e outras coisas que vocês não estão acostumados a me ouvir falar sobre

jan 28 2010

Olá. Eu sei, hoje faz duas semanas que eu não posto no Compulsive (uma pena, agora que as coisas estavam engrenando). As desculpas, além do trabalho, é a vida, o freelance, os meninos. Queria mudar um tanto o Compulsive; mas tem tanta coisa pra ler no meu Google Reader que eu ainda não consegui me concentrar nisso.

Mas hoje é um dia especial para ficar sem post. Hoje é o Lingerie Day no twitter e eu estou pagando sutiã por lá. Só por lá. Se você viu, bem, se não viu, amém. O Lingerie Day é uma brincadeira idealizada pelos meu troll favorito Izzy Nobre, com o Morróida (que também não vale o host que paga – se é que paga) e o Gravataí. Ano passado deu o maior bafafá, com várias feministas chatas enchendo o saco. Eu não lembro minha opinião no dia, mas seja ela qual for, eu não sou mais aquela pessoa, então resolvi brincar esse ano. (E outra: quem sabe eu não ganho um corpo novo, tipo a Geisy?)

(escrevo esse post no domingo e não sei se meus followers vão aumentar ou diminuir, hahahahahah, nem qual a reação da galera. Mas aposto que vai ser divertido.)

Então uma coisa leva a outra (hm!) e cá estou eu para divulgar um texto que li num blog. O melhor texto que já li sobre como fazer uma mulher chegar lá. E me deixa te dar uma dica, amigo: se eu chegar lá, você vai chegar lá. Sacou?

Eu (hnm) fiz umas (hmhm) experiências por esses tempos e notei que só meu ex (oi! De nada! Depois acerta comigo aquela (hm) cerveja!) sabia (hm) sabe fazer o serviço muito do bem feito. E eu correspondo bem a ele.

O que eu quero dizer é: meninos, não é que eu sou ruim de cama (como pareceu. Desculpa aí.). Se foi ruim pra você, saiba que eu fui ruim de cama só com você. Porque você não tive aquele cuidado especial do começo, sabe? Eu sei que você tentou. Mas lê o texto lá. É daquele jeito que faz. De nada.

E então eu pensei “Poxa vida eu podia ver no google se tem (porque com certeza tem e com certeza o google sabe) alguma forma de eu ser, digamos, agradável mesmo que não me agradem”. Então eu li o texto e falei “Quer saber? Foda-se. Se eu não vou me divertir igual, você também não merece grandes esforços”.

And that’s why o lingerie day é uma piada e não é machista. Porque machismo é esse egoísmo nojento que alguns rapazes têm de pensar que só eles merecem gozar e foda-se. Não, compadre. Eu também. Então é auto-defesa ser ruim se estiver ruim pra mim.

REFLITA.

Não achei minha menina no lixo e me respeito (por incrível que pareça). Quer algo de bom? Faça bem feito. Porque eu sou macho pra caralho, afinal de contas.

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